quinta-feira, 29 de novembro de 2012

O mundo e suas estradas...


Amabilidade custa tão pouco!

 

Certo dia, estava no posto de saúde do bairro Santa Luzia, quando uma senhora, uma mocinha e uma criança deixavam a unidade de saúde. Fiquei abismado com o que presenciei.

Para início de conversa, a senhora já saiu brigando com o garoto porque ele chorava, depois de tomado a vacina. Falava coisa do tipo “por acaso, você não é homem”, “vai ser esse medroso a vida inteira”, “tá parecendo menino bobo, não aguenta uma agulhazinha”. E assim seguia a humanidade.

Na verdade, o menino não é homem mesmo; é menino. Depois, já deixei de ser criança há muito tempo e nem gosto de ouvir falar em agulha. Uma coisa nada tem a ver com a outra.

Quanto mais o menino chorava, mais a mãe ameaçava dar-lhe uns tapas. Aí, o choro crescia ainda mais.

E foi aquele lenga-lenga até sair à rua, já fora da unidade de saúde, quando a mãe perdeu o restinho de paciência, se é que havia alguma, e deu a maior surra na pobre criança, aos berros, que não aguentava mais, que ela iria ficar doida (iria?) e acabou dando uns bons tapas no garoto.

Logo em seguida, passou uma senhora linda, com sua criança soluçando e ela a afagando a cabeça, dizendo que iria passar. Que aquilo era necessário para não adoecer e tudo aquilo que nós, os bem amados, conhecemos de sobra. A criança ainda perguntava à mãe se iria precisar tomar de novo, e ela prometendo que faria de tudo para não precisar.

Aqui, todos calados, como que paralisados na recepção da unidade de saúde, fiquei pensando cá com meus botões: não seria aí o início das diferenças sociais?

Enquanto o pobre coitado recebe gritos e bofetadas, o outro recebe apoio, confidências e carinho da mãe.

Não é de se admirar que cresça com melhores condições de se tornar uma pessoa amável, compreensiva e bem estruturada. Ao contrário, a outra criança terá motivos para criar dentro de si um sentimento de revolta pelo tratamento horrível que recebe da progenitora.

Aí está grande parte dos problemas sociais que muitos adolescentes causam à sociedade. Só pelos gestos das duas mães, foi possível perceber que percebem a contextos totalmente antagônicos. Como pode uma criança crescer acreditando no amor e paz se o que ouve e presencia é somente brigas, gritos, palavrões, guerra?

Talvez seja esta uma questão para se pensar. Depois de se chegar a uma conclusão, cada um age da melhor maneira para deixar aos nossos filhos um mundo pelo menos igual ao que encontramos quando aqui chegamos.