quarta-feira, 30 de setembro de 2015

154 Sonetos de William Shakespeare - Soneto nº88

Quando estiveres disposta a me desprezar, 
E expor meus méritos ao escárnio, 
Eu, ao teu lado, contra mim mesmo lutarei, 
E provarei tua virtude, embora seja teu o perjúrio. 
Com minhas fraquezas bem expostas, 
Por ti posso engendrar uma história 
De ocultas falhas, das quais sou acusado, 
Que, ao me pôr a perder, te recobrirá de glória. 
E eu disso também sairei vencedor, 
Pois, dirigindo a ti meus amáveis pensamentos, 
As injúrias que inflijo contra mim, 
Ao te dar vantagem, dou-as em dobro a mim. 
Assim é o meu amor, assim a ti pertenço, 
E, por teu direito, suportarei todo o engano.

terça-feira, 29 de setembro de 2015

154 Sonetos de William Shakespeare - Soneto nº87

Adeus! És muito cara para que eu te tenha, 
E bem conheces o teu próprio valor: 
O privilégio de teu peso te liberta; 
Minha devoção a ti é toda determinada. 
Como posso ter-te, senão por teu favor? 
E, diante de tanta riqueza, que fiz por merecê-la? 
A causa do presente que me é dado é meu desejo, 
E, assim, meu direito me é subtraído. 
Tu mesma marcaste teu valor sem o saber, 
Ou a mim, a quem o deste, por engano; 
Pois tua grande dádiva, de mim arrancada, 
Retorna à tua casa, melhor considerada. 
Assim, tive a ti, como um sonho demasiado: 
Um rei ao dormir e, ao despertar, um exilado.

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

154 Sonetos de William Shakespeare - Soneto nº86

Foi a vela enfunada de seu grande verso, 
Destinado a receber o prêmio de tua preciosidade, 
Que meus pensamentos maduros conjuraram, 
Matando-os no ventre onde cresceram? 
Foi seu espírito, ensinado pelos ares a escrever 
Acima de ditames mortais o que me aniquilou? 
Não, nem ele, nem seus noturnos confrades 
Ao ajudá-lo atormentaram o meu poema. 
Nem ele, nem aquele amável fantasma familiar, 
Que noturnamente instiga-lhe a inteligência, 
Vitoriosos, não podem gabar-se de meu silêncio; 
Não adoeci por medo de nada disso. 
Mas quando te ergueste para dizer seu verso, 
Então perdi o senso – o pouco que eu já tinha.

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

154 Sonetos de William Shakespeare - Soneto nº85

Minha silente Musa mantém seu silêncio, 
Enquanto os elogios a ti são ricamente reunidos, 
Louvando teu caráter com dourada pena 
E belas frases exclamadas por todas as Musas; 
Eu bem penso, enquanto outros escrevem bem, 
E, como o iletrado, digo, “Amém” 
Aos hinos que o ilustre espírito louva 
Tão polido quanto a refinada pluma. 
Ao ouvir loas a ti, digo, “Sim, é verdade”, 
E à maioria, acrescento algo além, 
Mais isto eu penso, cujo amor por ti 
(Embora as palavras logo venham), firma o seu lugar. 
Então, outros, por respeitar o que é dito, 
Eu, por ser tolo, o que penso, digo.

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

154 Sonetos de William Shakespeare - Soneto nº84

Quem diz mais? Qual deles diz mais, 
Do que este rico elogio – de quem tu és, 
Em cujo confinamento está guardado 
O modelo onde crescem teus pares? 
A magra penúria da pena vive 
De não retirar a glória de seu objeto; 
Mas aquele que escreve sobre ti, se puder dizer 
Quem tu és, assim dignifica a sua história. 
Deixa-o copiar o que está escrito em ti, 
Sem piorar o que a natureza deixou claro, 
E que ela dê fama à sua inteligência, 
Tornando seu estilo admirado em toda a parte. 
Tu, às tuas bênçãos de beleza, acrescentas uma praga, 
Teu gosto por elogios torna-os piores.

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

154 Sonetos de William Shakespeare - Soneto nº83

Jamais vi precisares de cores, 
E, assim, não há como pintar a tua beleza; 
Supus (ou pensei supor) que excedesses 
O legado cru de um poeta; 
E, portanto, adormeci por tua causa, 
Que tu, ao existir, pudesses mostrar 
Quanto uma moderna pena deixa de escrever, 
Falando de valor, do valor que cresce em ti. 
Tu imputaste este silêncio pelo meu pecado, 
Que será a minha glória, mesmo sendo surdo; 
Pois não impeço a beleza, embora mudo, 
Quando outros dariam a vida e encontrariam a morte. 
Há mais vida em um de teus belos olhos 
Que ambos teus poetas conseguem louvar.

terça-feira, 22 de setembro de 2015

154 Sonetos de William Shakespeare - Soneto nº82

Não quero que desposes a minha Musa, 
E, assim, deixes de ler 
As palavras dedicadas que os escritores usam 
Sobre seus belos objetos, abençoando seus livros. 
Tu és tão bela em saber quanto em cor, 
Colocando o teu valor além do meu louvor; 
E assim te vês forçada a buscar de novo 
Um olhar mais fresco que já passou. 
Faze isso, amor; embora quando vejam 
Que toques duros empresta a retórica, 
Tu, minha bela, terias simpatizado 
Com palavras simples por teu verdadeiro amigo; 
E suas cores grosseiras deveriam ser mais bem usadas 
Para enrubescer as faces, daquilo que sobra em ti.

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

154 Sonetos de William Shakespeare - Soneto nº81

Ou viverei para escrever o teu epitáfio, 
Ou sobreviverás quando na terra eu já tiver apodrecido; 
Daqui a morte não poderá arrancar a tua memória, 
Embora de mim cada parte seja esquecida. 
Teu nome aqui .cará imortalizado, 
Embora eu, depois de partir, morra para o mundo; 
A terra me reservará uma cova rasa, 
Enquanto jazerás sepulta perante todos. 
Meu verso frágil erigirá a ti um monumento, 
Que olhos divisarão no futuro, 
E línguas futuras mencionarão o teu ser, 
Quando todos deste mundo já tiverem ido. 
Ainda viverás (eis a virtude de minha pena) 
No hálito da boca de outros homens.

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

154 Sonetos de William Shakespeare - Soneto nº80

Ó, como enfraqueço ao escrever sobre ti, 
Sabendo que um espírito melhor usa teu nome, 
E do elogio emprega toda a força 
Para fazer-me calar, ao falar de tua fama. 
Mas como teu valor, vasto como o oceano, 
Humilde como a vela mais valente, 
Meu latido, muito inferior ao dele, 
Emerge sobre as tuas correntezas. 
Teu menor auxílio me manterá emerso, 
Enquanto ele cavalga tuas silentes profundezas; 
Ou, náufrago, sou um barco inútil, 
Ele, forte, alto e orgulhoso. 
Então, se ele sobreviver e eu for dispensado, 
Eis o pior: meu amor selou minha ruína.

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

154 Sonetos de William Shakespeare - Soneto nº79

Ao pedir para mim o teu auxílio, 
Meu verso recebia sozinho toda a tua graça; 
Mas agora perco o ritmo das palavras, 
E minha frágil Musa muda de lugar. 
Te dou, amor, teu adorável pretexto 
De merecer o suor de uma pena mais valiosa, 
Embora de ti teu poeta invente, 
Ele rouba de ti, e a ti novamente paga. 
Ele te dá a virtude, e subtraiu esta palavra 
De teus atos; ele te dá a beleza 
Ao vê-la em teu rosto; ele não pode 
Elogiar-te senão naquilo que já existe em ti. 
Então, não lhe agradeças pelo que ele te diz, 
Pois o que ele te deve é o mesmo que lhe pagas.

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

154 Sonetos de William Shakespeare - Soneto nº78

Tantas vezes invoco-a como minha Musa, 
E encontro auxílio para meu verso 
Toda vez que uso minha pena, 
E por ti sua poesia é aspergida. 
Teus olhos, que ensinaram os mudos a cantar, 
E a pesada ignorância a planar, 
Criou plumas para a sábia asa, 
E deu à graça majestade em dobro. 
Mesmo me orgulhando do que compilo, 
Cuja influência vem e brota de ti; 
Na obra alheia apenas consertas o estilo, 
E as artes com teu dom são abençoadas; 
Mas tu és toda a minha arte, e avanças 
Tão alto quanto aprendo sobre o que nada sei.

terça-feira, 15 de setembro de 2015

154 Sonetos de William Shakespeare - Soneto nº77

Teu espelho te mostrará como a beleza se extingue, 
Teu relógio, como os preciosos minutos se gastam; 
As folhas ausentes ficarão marcadas em tua mente, 
E a lição que deverás aprender deste livro: 
As rugas que teu fiel espelho te mostrará 
Cavarão sulcos em tua lembrança; 
Tu, pela sombra dos ponteiros do relógio, verás 
O andar sub-reptício do tempo até a eternidade; 
Vê o que tua memória não pode suportar, 
Aceitando esses desperdícios, e encontrarás 
Essas crianças alimentadas, livres de tua mente, 
Para conhecer, de outro modo, teu pensamento. 
Esses fatos, sempre que os leres, 
Ser-te-ão proveitosos, e muito enriquecerão teu livro.

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

154 Sonetos de William Shakespeare - Soneto nº76

Por que meu verso está tão minguado,
Sem variação ou rápidas mudanças?
Por que com o tempo não olho para o lado
Buscando novos métodos e estranhos modos?
Por que escrevo da mesma forma, a mesma coisa,
E deixo à parte a invenção,
Que cada palavra se torne minha conhecida,
Mostrando-me de onde vem?
Ó, saiba, amor, que é para ti que escrevo,
E tu e o amor sois ainda meus assuntos;
Então, o melhor que faço é reescrever as velhas palavras,
Aplicando novamente o que já foi usado;
Como o sol que, a cada dia, é sempre velho e novo,
Assim é o meu amor, dizendo tudo que se diz.

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

154 Sonetos de William Shakespeare - Soneto nº75

És, para mim, como o alimento para a vida, 
Ou a chuva amena para o solo no tórrido verão; 
E, para teu bem-estar, me esforço 
Entre a miséria e a riqueza: 
Orgulhoso com o desfrute, e logo 
Duvidando que a idade roube seu tesouro; 
Agora espero estar apenas contigo, 
Então, melhor para que o mundo me veja bem; 
Por vezes, comemorando à nossa vista, 
E aos poucos ansiando por um olhar; 
Possuindo ou perseguindo qualquer prazer, 
Exceto aquilo que se tem ou seja tirado de ti. 
Assim, jejuo e sobrevivo a cada dia,
Ou a tudo devoro, o tempo todo.

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

154 Sonetos de William Shakespeare - Soneto nº74

Alegra-te: quando a dura prisão 
Sem dó para longe me arrastar, 
Minha vida tem neste verso um interesse, 
Que, em memória, ainda em ti continuará. 
Quando o revires, verás de novo 
Tudo o que consagrei a ti. 
A terra terá apenas a terra, que a ela pertence; 
Meu espírito é teu – a melhor parte de mim: 
Então, quando dissipares o que restar de tua vida, 
Presa dos vermes, meu corpo sucumbido; 
Na covarde conquista de um punhal maldito, 
Haverá muito pouco de ti para ser lembrado. 
Seu valor está no que ele contém, 
E isto é o que vale e, este sim, ficará contigo.

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

154 Sonetos de William Shakespeare - Soneto nº73

Vês em mim esta época do ano 
Quando poucas ou nenhuma folha amarelecida 
Nos galhos que tremem ao vento frio, 
Coros desertos onde os doces pássaros cantavam. 
Em mim, vês o crepúsculo deste dia 
Após o naufrágio do sol a Oeste, 
Que, pouco a pouco, a noite escura afasta, 
A outra face da Morte, que tudo silencia. 
Em mim, vês o brilho deste fogo 
Que permanece nas cinzas de sua juventude, 
Como o leito de morte onde deve expiar, 
Consumido pelo ardor que o nutria. 
Isto vês, que fortalece o teu amor, 
Para amar o que logo irás abandonar.

terça-feira, 8 de setembro de 2015

154 Sonetos de William Shakespeare - Soneto nº72

Ó, a menos que o mundo te obrigue a dizer 
Que méritos tanto amavas em mim 
Após a minha morte, amor, esquece-me; 
Pois nada podes provar sobre o meu valor, 
A menos que inventes uma grande mentira 
Para fazer por mim mais do que eu mesmo, 
E imputar mais elogios depois que eu morrer 
Do que a dura verdade poderia me conceder. 
Ó, a menos que teu amor agora seja falso, 
Que tu, por amor, mintas para falar bem de mim, 
Meu nome seja enterrado com meu corpo, 
E deixe de viver para não vexar a mim nem a ti; 
Pois me envergonho de tudo que faço; 
E tu, também, por amar o que não tem valor.

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

154 Sonetos de William Shakespeare - Soneto nº71

Não chores mais por mim depois que eu morrer, 
Ao ouvir o sombrio e escuro sino 
Anunciando a todos que parti 
Deste mundo vil, habitado por vermes ainda mais vis: 
Não, se leres este verso, não lembres 
Da mão que o escreveu; pois te amo tanto, 
Que prefiro ser esquecido de teus doces pensamentos, 
Se lembrar de mim te causar algum pranto. 
Ah, se (eu digo) leres este verso 
Quando eu já estiver misturado à terra, 
Não ensaies repetir meu pobre nome; 
Mas deixa teu amor apodrecer com minha vida: 
A menos que o mundo pondere e perscrute tua dor, 
E despreze a ti, por mim, após minha partida.

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

154 Sonetos de William Shakespeare - Soneto nº70

Que tuas culpas não sejam teus defeitos, 
Pois a marca da calúnia nunca é bela; 
O adorno da beleza torna-se suspeito, 
Um corvo a voar na brisa mais amena. 
Se agires bem, a injúria nada faz senão 
Engrandecer o teu valor com o tempo; 
Os vermes refestelam-se nos doces botões, 
E tua beleza se mostra imaculada. 
Superaste a armadilha da juventude, 
Sem assaltos, nem vitórias; 
Embora o elogio não possa ser ofertado 
Para impedir uma inveja ainda maior. 
Se as suspeitas de erros não te mascararem, 
Vencerás sozinha todos os corações.

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

154 Sonetos de William Shakespeare - Soneto nº69

Estas partes que os olhos do mundo vislumbram 
Nada querem que a vontade dos corações cure; 
Todas as línguas (a voz das almas) te dão o que é teu, 
Murmurando a verdade, mesmo dita por inimigos. 
Teu semblante com elogios aparentes é coroado, 
Mas essas mesmas línguas que te reconhecem 
Em outros tons confundem os elogios, 
Vendo mais do que os olhos veem. 
Eles divisam a beleza de tua mente, 
E adivinham a tua dimensão pelos teus atos; 
Então, distorcem os seus pensamentos, embora vejam bem, 
Emprestando às tuas belas flores um mau odor. 
Mas como teu perfume não se iguala ao que mostras, 
Este é o chão onde deves crescer como um ser comum.

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

“Mulher Fatal”

Tap Tap Tap Tap...
O som do salto alto chamava atenção e com ele uma bela mulher vestida para matar seguia com pressa. Arrancava olhares por onde passava. Criava desejo e inveja!
Qualquer um poderia perceber aquela beleza de trinta anos. Independente, forte e dona de si.
Parou na frente de um prédio de dois andares, tocou a campainha. 
Um “já vai” foi ecoado do segundo andar.
Passos lentos desciam a escada em direção à porta.

– Quem é? – perguntava a Dona da casa.

– Sou eu fia! Uai, a festa ainda não começou?

– Começou, mas é só uma reunião de amigas. Tudo muito informal!

A anfitriã abriu a porta, abraçou e cumprimentou a Mulher Fatal. Subiram ao encontro da aniversariante e das outras amigas.
... 
– Onde está Clara? – perguntou a Mulher Fatal enquanto cumprimentava as primas e tia maternas da aniversariante.

– Deve estar com a amiga se arrumando no quarto! – respondia a mãe de Clara.

Após alguns minutos de conversa entre os presentes, Clara aparece. Era uma moça de estatura média, mas de beleza ímpar e feminina. Suas curvas chamavam atenção pela simetria perfeita, os cabelos negros e lisos exaltavam a mistura exótica a qual pertencia e seus olhos castanhos demonstravam uma pureza rara de se encontrar. Seus dotes físicos sobressaiam à beleza de sua amiga que era um pouco mais alta.

– Aposto que estavam fazendo mais uma sessão de fotos? – questionava a Mãe de Clara com cara de riso.

As moças riram.
...
– Clara, gostou do presente? – perguntava a Mulher Fatal após abraçar a aniversariante.

– Sim, – respondia a moça com a expressão de muita gratidão, que era um jeito meio inquieto de se mover. – e muito! Amo comida, ainda mais chocolates.

– Dezoito anos, deve estar cheia de namorados! Aproveita mesmo, arranca tudo que puder deles. Homem não presta!

– Não tenho namorado ou namorados, acho que quero ser freira. – respondia Clara com sinceridade de alma.

E com um impulso de pura ira pela resposta, a Mulher Fatal soltou os cães com a voz alterada! 

– COMO ASSIM VOCÊ QUER SER FREIRA, FAZER PARTE DESSE PATRIARCADO OPRESSOR E PRECONCEITUOSO. NÃO CONHECE NADA DA VIDA... – logo foi interrompida pela mãe de Clara.

– Mais respeito em minha casa e com minha filha! Se minha menininha tiver vocação para Freira, ela será! Guarde suas besteiras feministas para sua turma. Respeito às diferenças, desde que não inventem impor nada a mim ou minha família.

Antes que uma nova discussão começasse entre as duas, a tia de Clara interveio e a festa continuou como se nada estivesse acontecido, mas a Mulher Fatal sentia inveja de Clara. Sua beleza, juventude, feminilidade e pureza, faziam-na sentir-se mal.
E com isso, começou indiretamente um exame de consciência. Lembrou-se de como aproveitou a vida ao extremo e o peso de cada escolha que não queria assumir. Da vida ceifada de seu ventre. Dos caras legais que enrolou no passado, principalmente Nathanael que a amava.
Clara tinha tudo para ser feliz, juventude, beleza e coragem pra não seguir o cardume. Coisas que a Mulher Fatal perderá em algum ponto de sua vida e já não sabia encontrar.
...
A vela foi soprada, Clara ficou feliz.
Amava bolo e mingau, mas não esperava que seu bolo de aniversário unisse as duas paixões gastronômicas. O primeiro pedaço foi para seu amor incondicional, sua diva e guerreira mãe. Sentiu falta do irmão, porém a irmã de pais diferentes estava lá, sempre ao seu lado. Entre conversas, risadas e interesses mútuos.
...
Roubada por um momento de satisfação enquanto saboreava o bolo colher a colher. Pensou que se não fosse freira, seguiria carreira em Medicina especializada em Psiquiatria ou Neurologia. O cérebro humano a fascinava.
Estudaria o máximo para conseguir realizar o sonho! Queria ser o maior orgulho da Mãe, que sempre comentava em suas fotos um “fui eu que fiz” depois de um elogio de terceiros.
...
Do outro lado da sala estava a Mulher Fatal, já triste. Pediu desculpas a todos pelos seus atos. Estava envergonhada. Não queria perder as poucas e sinceras amigas que tinha.
A festa já tinha acabado!
Despediu-se de todos, seguiu pensativa para casa. Esperava um grande amor, o príncipe encantado. Alguém que a fizesse renascer depois de tudo o que havia feito na vida. Alguém que Clara encontraria com facilidade. Mas, o máximo que tinha conseguido foi uma narrativa parecida com A Mulher de 30 Anos de Balzac e seu único companheiro naquele momento era o barulho do salto alto.
Tap Tap Tap Tap...

154 Sonetos de William Shakespeare - Soneto nº68

Seu rosto revela o mapa de outros dias, 
Quando a beleza vivia e fenecia como as flores, 
Antes que nascessem esses malignos e belos sinais, 
Ou que ousassem vir cobrir-te a fronte; 
Antes dos dourados cachos dos finados, 
O direito dos sepulcros fossem cortados 
Para viver outra vida em outra cabeça, 
Os cachos mortos da beleza a adornar outro. 
Nele as sagradas e antigas horas se veem 
Sem nenhum ornamento, a face despida e verdadeira, 
Sem reviver com o verdor de outro verão, 
Sem roubar um velho adorno para usá-lo como novo; 
E ele como um mapa a natureza guarda, 
Para mostrar com falsa Arte como a beleza fora um dia.

terça-feira, 1 de setembro de 2015

154 Sonetos de William Shakespeare - Soneto nº67

Ah, onde deveria viver infecto 
E com sua presença favorecer a impiedade, 
Dando vantagem ao pecado, 
E aliando-o à sua companhia? 
Por que deveria falsificar seu retrato, 
E dar aos mortos o tom de sua vívida cor? 
Por que deveria a pouca beleza buscar, trôpega, 
Sombras róseas, se sua cor rosada é verdadeira? 
Por que ele deveria viver, agora que a natureza ruiu, 
Suplicando ao sangue que suba à tona por suas veias? 
Pois ela não tem outro provedor senão o dele, 
E orgulhoso de muitos, vive de seu proveito, 
Ó, ela o alimenta, para mostrar a riqueza 
Que há muito tinha, antes de vencer o mal.