sexta-feira, 30 de outubro de 2015

154 Sonetos de William Shakespeare - Soneto nº110

Ah, é bem verdade, fui a toda parte 
E .z de mim um tolo perante todos, 
Gorei os pensamentos, vendi barato o mais caro, 
Renovei velhas ofensas às minhas afeições. 
Certo é que encarei a verdade 
De soslaio e a estranhei; mas, por tudo que foi dito, 
Esses erros deram novo alento ao meu coração, 
E as piores tentativas provaram que és meu amor. 
Agora tudo está feito, tenha o que não tiver fim; 
Meu apetite nunca mais eu moerei 
Para obter novas provas, para testar um velho amigo, 
Um deus do amor a quem sirvo. 
Então, receba a mim, dando-me o melhor dos céus, 
Mesmo para o teu mais puro e adorado coração.

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

154 Sonetos de William Shakespeare - Soneto nº109

Ó, nunca digas que foi falso meu coração, 
Embora a ausência assim me fizesse parecer! 
Tão leve me desprendo do meu corpo, 
Quanto da minha alma, que jaz em teu peito: 
Eis o meu lar de amor: se tenho errado, 
Como quem viaja, novamente retorno; 
Ainda a tempo, mas sem retomá-lo – 
Para dar sustento ao meu engano. 
Nunca acredites, mesmo que em minha natureza reinem 
Todas as fraquezas que assediam qualquer um, 
Cuja honra seria grosseiramente manchada, 
Desperdiçando tudo que tens de bom; 
A nada neste imenso universo me dedico, 
Exceto a ti, minha rosa; e, nele, és tudo para mim.

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Estagnação Secular

– Obrigado por essa oportunidade de falar sobre economia para esta ordem religiosa de grande valor, – discorria o Economista ao grupo de hábitos negros. – e também por participar desse grande evento de ideias. Sem mais delongas, vamos ao que interessa.

Abriu sua apresentação de slide e começou sua palestra.



O Acerto de Contas 

Slide 1


O primeiro cenário que temos é o Brasil.

  • O país passa por uma grave crise. Perdemos os vinte e um anos de bom funcionamento do Plano Real. Tudo que foi realizado para estabilizar a moeda desde sua criação em 1994, foi jogado no lixo. Graça a nova matriz econômica. 


Slide 2
  • Nosso problema começou com a adoção da “nova matriz econômica” caracterizada por perseguição de uma taxa de juro baixa, busca de uma taxa de câmbio competitiva e aumento dos gastos públicos. Ferindo assim a antiga e funcional matriz econômica que tinha como alicerce: sistema de metas de inflação, câmbio flutuante e austeridade fiscal. 


Os próximos slides explicaram os problemas causados pela crise financeira mundial no segundo semestre de 2008 e a adoção da nova matriz econômica. Aonde a largada para a situação atual, começou com a expansão de crédito em bancos estatais, o pais cresceu nesse curto período de tempo, chamando atenção de outros países pelo milagre econômico em meio à crise financeira. Porém, o milagre econômico naufragou em pouco tempo. 

E a noite mais densa, ainda estava por vir.
O fim do “governo” Lula e a continuação da nova matriz no mandato de Dilma Rousseff, tornaram-se uma lambança ainda pior. Nesse período, houve a aprovação da MP 579, que reduziu a tarifa de energia e modificou as concessões de hidroelétricas. Houve a guerra aos bancos privados que não baixarem os juros e mais alterações nas concessões de aeroportos e poços de petróleo, com legislações exóticas e tabela de lucro permitido. 

E assim decorreram mais vinte tópicos sobre o assunto. Ao perceber que os presentes estavam dispersos, o orador resolver descontrair a plateia com uma piada.



– Um bandido condenado à morte, senta-se na cadeira elétrica para ser executado. O diretor do presídio fala:
De acordo com a lei, o senhor tem o direito a um pedido.
Sem hesitar o bandido fala:
Eu gostaria que o senhor segurasse a minha mão!




Após muitas risadas o Economista, fechou dizendo:


– É assim que age o governo atual, comete todo tipo de crimes hediondos e na hora de receber a sentença quer todos segurem a sua mão. 

O sabor amargo tomou conta de todos os presentes. 

A apresentação continuou com a atenção reforçada...

Slide 29 

  • Com os fatores apresentados anteriormente, teremos uma década perdida a frente, com altas no desemprego, na inflação, prejuízo salarial e desvalorização do real. 

  • E para agravar ainda mais a situação, temos a desaceleração da economia chinesa e com isso o menor interesse por commodities minerais, impactando diretamente em nossa economia; que funciona a base de exportação de commodities principalmente minerais para a China. 

Slide 30 

Federal Reserve System

  • O que esperar do FED nesse dia 17 de setembro de 2015? A única coisa que pode ser falada é: mesmo que o FED não aumente a taxa de juros na reunião dessa semana, o dólar pode chegar cada vez mais perto do valor de quatro reais, ou pode ter uma pequena queda para depois voltar a subir. Uma incógnita que saberemos somente amanhã no final da reunião. 

  • Quem tem investimentos em dólar há um bom tempo pode esperar lucro elevado! Em qualquer uma das duas situações. 

Slide 31

  • Mas vale lembrar que o passivo do Banco Central norte-americano passou de US$ 800 bilhões em 2008 para US$ 3,6 trilhões até o presente momento. O BC possui reservas de capital no valor de US$ 56 bilhões, impossibilitando a capacidade de solvência. A subida dos juros pelo FED é necessária para conter a dívida do país. 



Slide 32 

Commodities e o Mundo


  • Primeiro vamos dar uma olhada na relação Rússia e China. Os dois países são parceiros comercias e negociam entre si usando ouro, pois eliminaram o dólar de suas transações. Ou seja, os dois já não convertem suas divisas em dólar para comercializar. Outro fator interessante, é que as duas nações são as maiores compradoras de ouro físico do mundo. Mesmo com a entrada do Banco da China na equipe de bancos responsáveis pelo preço mundial do ouro, a Rússia ainda supera a China na compra do metal.

Slide 33

  • Vale lembrar também, que a Rússia negocia commodities como petróleo e gás por ouro físico, porém aceita dólares que são convertidos para ouro após fechar o negócio. A quase jogada de mestre, está no fato de vender um recurso mineral de certa abundância (petróleo, gás...) a um valor alto e depois comprar outro recurso mineral de menor abundância e maior valor na forma de investimento (ouro) por um valor inferior. 

Slide 34

  • Em contrapartida temos uma guerra de commodities energéticas, aonde os Estados Unidos aumentaram a produção de petróleo, em especial nas áreas de xisto betuminoso. 

  • Porém, houve uma queda acentuada de consumo em novembro de 2014, diante do excesso de oferta e da recusa dos países da OPEP em reduzir seu teto de produção, independentemente do preço no mercado internacional. 


Slide 35 


  • Essa contrapartida barrou a jogada russa na compra do ouro físico, juntamente com as sanções que o país recebeu pelos ataques a Ucrânia. Mas até quando? Lembrando que toda a Europa utiliza o gás russo para sobreviver (principalmente no inverno).

  • No meio disso temos a Petrobras, enfraquecida internamente por esquema de corrupção. A maior empresa do mundo tem a maior divida do mundo e não encontra meios substanciais para resolver isso, além de, sofrer deteriorando de seu valor a cada dia. Sua cotação é uma caixa de surpresas no mercado.

Slide 36

A Grande Cilada dos Bancos Centrais


  • O excesso de intervencionismo que os Bancos Centrais e governos vem adotando desde a crise de 2008 para salvar a economia mundial, foi um movimento necessário, porém levou a uma grande armadilha. Basicamente, transferiu-se aos Bancos Centrais o excesso de endividamento. E assim as autoridades monetárias assumiram para si as dívidas de seus países e adicionaram outros US$ 12 trilhões de dinheiro ao sistema financeiro.

Slide 37 

  • Uma falsa sensação de bem estar foi criada, alimentada por juros zerados ou até mesmo negativos, com uma liquidez sem precedentes. Os mercados são alimentados diariamente pelos Bancos Centrais. Injeção de dinheiro fácil e barato, a taxas de juros excepcionalmente baixas por um longo período de tempo.

  • Logo, os preços das empresas em bolsa inflam e essa bolha é a raiz do problema. Temendo o ajuste nos preços para baixo, os Bancos Centrais vêm hesitando em acabar com a farra de liquidez, o que acaba tornando a bolha cada vez maior. 

Slide 38 


  • O fantasma da crise de 2008 bate a porta, porém acrescido de uma enorme quantia de dinheiro impressa nos programas de impressão de moeda adotados nos últimos anos não só nos EUA, mas na Europa, Japão, China… 

  • Porém, desta vez é diferente. O mecanismo de defesa (Bancos Centrais) estão completamente contaminado e não podem ajudar no estouro de uma nova crise, pois eles também são parte do problema. 

Slide 39

  • É evidente que estamos diante da maior de todas as bolhas do sistema financeiro mundial! Com a crise na Europa perdurando há anos, o FED com estímulos financeiros que ultrapassam sua capacidade de solvência, o Japão vindo de uma década sem crescimento e a China começando a lidar com as consequências de anos de crescimento desenfreado à base de estímulos de liquidez. O problema é generalizado. 

Slide 40 

Estagnação Secular 


Slide 41


  • Se a farra da liquidez e dos juros zerados não for resolvida em breve teremos uma Estagnação Secular. O termo foi criado por Alvin Hansen, no auge da Grande Depressão, em 1938.

  • Hansen, então presidente da American Economic Association.

  • Em sua acepção, a Estagnação Secular é um círculo vicioso. Aonde a baixa de juros não consegue estimular o crescimento, pois o desemprego enfraquece a já baixa demanda que, por sua vez desestimulava o crescimento. Sem investimentos, o desemprego aumentava e enfraquecia ainda mais a baixa demanda agregada.

Slide 42 

  • Esse ciclo não seria algo transitório ou de fácil solução. Pois seu problema é estrutural, com mudanças nas bases da economia dos países industrializados. E como as economias dos países industrializados e dos EUA saíram da recessão na década de 1930?

  • Esse problema foi resolvido com a Segunda Guerra Mundial. E somente com ela foi possível preencher o buraco da demanda agregada, a partir de gastos militares bastante pesados. 

  • Hoje vemos esses gastos bélicos em países como Rússia e China, aonde o primeiro pais gasta 10% do PIB do em armamentos e o segundo gastou em 2014 US$ 130 bilhões e pretende atingir os dois dígitos esse ano. 

Slide 43 

  • O fato de China e Rússia terem o mesmo posicionamento ideológico e estarem se armando é algo grave e que pode nos levar a uma Terceira Guerra Mundial, já que a quebra financeira e sistêmica e muitos países se beneficiariam disso.

  • Os tempos são difíceis, mas ainda não são de guerra, tudo indica que ainda teremos mais um tempo antes que a bolha em fim exploda. Porém, todos devem se proteger da forma que achar melhor, sendo por meio de investimentos conservadores como Títulos públicos e ouro, ou aproveitando o restante de liquidez de ações dolarizadas.

– Isso é tudo, muito obrigado! Quem quiser fazer perguntas eu posso tentar responder.

154 Sonetos de William Shakespeare - Soneto nº108

O que há na mente que a pena possa descrever 
Que ainda não revelou a ti o meu verdadeiro espírito? 
O que há de novo a ser dito, o que há agora a registrar, 
Que possa expressar o meu amor ou os teus belos méritos? 
Nada, meu caro rapaz; porém, como as preces divinas, 
Devo, a cada dia, repetir as mesmas palavras, 
Sem contar o que passou, tu comigo, eu contigo, 
Mesmo quando primeiro pronunciei o teu nome. 
Então, o eterno amor dentro do terno peito 
Não pesa nem o pó, nem a injúria do tempo, 
Nem dá lugar às rugas necessárias, 
Mas faz da antiguidade a sua condutora, 
Encontrando a primeira vaidade do amor ali nascido, 
Onde o tempo e as belas formas o mostrassem morto.

terça-feira, 27 de outubro de 2015

154 Sonetos de William Shakespeare - Soneto nº107

Não os meus medos, nem a alma profética 
Do imenso mundo que sonha com o futuro 
Pode controlar o meu verdadeiro amor, 
Suposto e destinado à desgraça certa. 
A lua mortal tem seu eclipse prolongado, 
E os tristes augúrios desdenham seus presságios; 
Incertezas hoje coroam-se seguras, 
E a paz proclama os frutos de uma eternidade. 
Agora com as gotas desse momento tão balsâmico, 
Meu amor parece jovem, e a Morte a mim se subjuga, 
Como, apesar dela, eu viverei nesta pobre rima, 
Enquanto ela insulta suas turbas tolas e emudecidas; 
E tu, nisto, encontrarás teu monumento, 
Quando ruírem os túmulos de bronze dos tiranos.

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

154 Sonetos de William Shakespeare - Soneto nº106

Quando na passagem do tempo perdido 
Vejo descritos os belos ramos, 
E a beleza emprestar seus dons à velha rima, 
Ao elogiar as damas mortas e os belos cavaleiros, 
Então, no brasão da melhor doçura da beleza, 
Da mão, dos pés, dos lábios, dos olhos, da fronte, 
Vejo que sua antiga pluma teria expressado 
Mesmo tal beleza como teu senhor agora. 
Então, todos os elogios não são senão profecias 
Deste nosso tempo, tudo que pressagias, 
E, mesmo vendo com olhos de adivinho, 
Não tinham talento suficiente para cantar os teus dons; 
Pois nós, que hoje aqui estamos, e vemos, 
Temos olhos para sonhar, mas não línguas para louvar.

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

154 Sonetos de William Shakespeare - Soneto nº105

Não deixes meu amor ser chamado idolatria, 
Nem minha amada, de meu ídolo, 
Pois todos os meus cantos e versos são apenas 
Para ela, sempre sobre ela, e muito mais ainda. 
Amável é meu amor, hoje e amanhã, 
Sempre constante em maravilhoso espanto; 
Portanto, meu verso, preso à constância, 
Ao dizer uma coisa, entrevê outra. 
Bela, gentil e verdadeira, é tudo o que digo, 
Bela, gentil e verdadeira, dito com tantas palavras; 
E, nesta alternância, uso a minha mente, 
Três em um, que suporta a soberba visão. 
Bela, gentil e verdadeira sempre viveram sozinhos, 
Pois, juntos, até hoje, nunca existiram em ninguém.

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

154 Sonetos de William Shakespeare - Soneto nº104

Para mim, bela amiga, jamais serás velha, 
Pois assim como eras da primeira vez, 
Ainda me pareces bela. O frio de três invernos 
Ceifou das florestas o calor de três verões, 
Três belas primaveras amareleceram no outono, 
Eu vi, com o passar das estações, 
Três perfumes de abril arderam em três quentes junhos, 
Desde que te vi tão jovem ainda a preservar a juventude. 
Ah, embora a beleza, mão avara, 
Roube de sua imagem, e não perceba seu gesto; 
Então tua doce cor, que para mim ainda é fresca, 
Alterou-se, e meus olhos podem se enganar. 
Por medo de que, ouve bem, envelheças intacta: 
Desde que nasceste, morreu o verão da beleza.

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

154 Sonetos de William Shakespeare - Soneto nº103

Ah! Que pobreza traz a minha Musa, 
Que de tal modo demonstra seu orgulho, 
Mesmo o ínfimo argumento vale mais, 
Do que ouvir meus elogios a seu favor. 
Ah, não me culpes se eu não mais escrever! 
Olha no espelho, e lá verás um rosto 
Que em muito supera minha torpe invenção, 
Borrando minhas feições, e lançando-me em desgraça. 
Não era pecado, então, ao tentar emendar, 
Arruinar o ser que antes era são? 
Porque meus versos não tendem a mais nada 
Do que a bendizer tuas graças e teus dons; 
E mais, muito mais, do que em meus versos cabe, 
Teu espelho te diz ao te mirares nele.

terça-feira, 20 de outubro de 2015

154 Sonetos de William Shakespeare - Soneto nº102

Meu amor se fortalece, embora não pareça mais forte; 
Não amo menos, embora não demonstre tanto; 
O amor anunciado, cuja rica estima 
A língua de seu dono difunde por toda a parte. 
Nosso amor era jovem, então, na primavera, 
Quando queria saudá-lo com meus amavios; 
Como o rouxinol que canta assim que o verão principia, 
E interrompe seu trinado à espera de dias mais maduros: 
Não que o verão seja menos agradável agora 
Do que seus tristes hinos que a noite silenciam, 
Mas a louca música pesa em seus ramos, 
E as doçuras perdem seu delicioso gosto. 
Assim, como ela, por vezes também me calo, 
Para não enfastiar-te com o meu canto.

154 Sonetos de William Shakespeare - Soneto nº101

Ó, negligente Musa, que desculpas me darás 
Por faltares com a verdade tingindo-a com a beleza? 
Do belo e da verdade depende o meu amor; 
E tu, também, para te tornares digna. 
Responde, Musa: não me dirás, alegremente, 
“A verdade não precisa de tom por ter sua própria cor, 
Nem a verdade, de lápis para desenhá-la; 
Mas o bom é o melhor, se jamais for corrompido?”– 
Por ele não precisar de elogios, te entorpecerás? 
Não desculpes o silêncio; por depender de ti 
Para fazê-lo viver além da dourada tumba, 
E ser aclamado longamente no porvir. 
Assim, cumpre teu ofício, Musa; te ensinarei como 
Fazê-lo parecer profundo então como se parece agora.

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

154 Sonetos de William Shakespeare - Soneto nº100

Musa, onde estás, que há tanto tempo te esqueces 
De dizer aquilo que te dá todo o teu poder? 
Usaste teu furor em uma canção espúria, 
Reduzindo a força para emprestar-lhes tua luz? 
Volta, esquecida Musa, e redime logo 
Em doces horas o tempo inutilmente despendido; 
Canta para os ouvidos de quem te estima, 
E dá, à tua pluma, talento e voz. 
Levanta, leve Musa, vê na suave face do meu amor 
Se o Tempo a marcou com alguma ruga: 
Se há, ri da decadência, 
E despreza os despojos do Tempo por toda a parte. 
Dá a meu amor fama mais rápido do que o Tempo gasta a vida; 
Para que, de sua foice, me afastes a encurvada lâmina.

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

154 Sonetos de William Shakespeare - Soneto nº99

A violeta exibida, assim a reprovei: 
“Doce ladra, de onde roubaste o suave perfume, 
Senão do alento do meu amor? O orgulho róseo 
Que vive nas faces macias de tua compleição, 
Tiraste grosseiramente das veias da minha amada”. 
O lírio que condenei em tua mão, 
E as folhas de orégano dispersas em teu cabelo; 
As rosas, medrosas, calaram-se com seus espinhos, 
Uma, corada de vergonha; outra, lívida de desespero; 
A terceira, nem pálida, nem rubra, a ambas roubou, 
E para seu roubo, juntou o teu hálito; 
Mas, para seu furto, orgulhosa de crescer, 
Um vingativo câncer consumiu-a até morrer. 
Vislumbrei inda mais .ores, embora não visse nenhuma, 
Senão a doçura ou a cor que de ti roubou.

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

154 Sonetos de William Shakespeare - Soneto nº98

De ti me afastei na primavera, 
Quando o orgulhoso abril, todo aprumado, 
Em tudo pôs um sopro de juventude, 
Que o plúmbeo Saturno se riu e com ele saltou. 
Embora nem os bandos de pássaros, nem o doce perfume 
De diferentes .ores em cor e odor 
Poderiam me fazer contar uma história de verão, 
Ou tirá-las do farto regaço onde vicejam; 
Não me surpreendi com a brancura do lírio, 
Nem elogiei o carmim intenso da rosa; 
Eram apenas doces, apenas figuras de encanto, 
A imitarem a ti, tu, modelo de todas elas. 
Embora ainda parecesse inverno, e tu, à distância, 
Como com tua sombra, eu, com elas, brinquei.

terça-feira, 13 de outubro de 2015

154 Sonetos de William Shakespeare - Soneto nº97

Como o inverno, tornou-se minha ausência 
De ti, o prazer com que passou o ano! 
Que frio senti, que dias negros eu vi! 
A estiagem de dezembro espalhou-se por toda a parte! 
E longe .cava, então, o verão, 
O próximo outono, crescendo com toda a força, 
Suportando o luxurioso peso do início, 
Como úteros viúvos após a morte de seus senhores; 
Embora esse farto assunto me pareça 
A esperança de órfãos, e de frutos sem ascendência, 
Pois o verão e seus prazeres servem a eles, 
E, embora distante, os mesmos pássaros emudeçam; 
Ou, se cantam, emitem um trinado tão mortiço, 
Que as folhas empalidecem, por temerem o inverno.

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

154 Sonetos de William Shakespeare - Soneto nº96

Alguns dizem ser teu erro a juventude; outros, a lascívia; 
Outros dizem ainda que a juventude e o ânimo dão-te graça. 
Tanto a graça quanto os erros são bem ou mal amados; 
Transformas faltas em bênçãos como bem te aprazem. 
Como no dedo de uma rainha coroada 
A mais simples joia será mais cara, 
Assim são os erros que diviso em ti, 
Traduzidos como verdade e tidos como autênticos. 
Quantas ovelhas pode o astuto lobo enganar, 
Se na ovelha pudesse se transformar! 
Quanto assombro não irias afastar, 
Se usasses o poder concedido por teus bens! 
Mas não faças isso; amo-te de tal modo, que 
Por seres minha, digo que tudo fazes à perfeição.

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

154 Sonetos de William Shakespeare - Soneto nº95

Que doce e amorosa transformas a vergonha, 
Que como um câncer na perfumada rosa 
Realça a beleza de teu próprio nome! 
Ó, com que doçuras envolves teus pecados! 
A língua que conta tua história, 
Comentando lasciva teu divertimento, 
Não pode desprezar, como se elogiasse, 
Dizendo teu nome, bendizendo a maldição. 
Ó, que mansão apreendeu esses vícios 
Que para habitá-lo escolheu a ti, 
Onde o véu da beleza esconde toda a mácula, 
E tudo diante dos olhos se embeleza! 
Atenção, meu coração, para este grande sortilégio: 
Se mal usada, a faca mais afiada perde seu fio.

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

154 Sonetos de William Shakespeare - Soneto nº94

Aqueles que têm o poder de ferir e nada farão, 
Que não fazem o que demonstram, 
Que ao impelir outros, são como pedra, 
Imóveis, frios, e imunes à tentação – 
E por direito caem nas graças divinas, 
E herdam da natureza as riquezas de seu custo; 
Eles são os senhores e donos de si mesmos, 
Os outros, apenas os servos de sua excelência. 
A flor do verão é doce para a estação, 
Embora para si mesma apenas viva e feneça; 
Mas se essa flor for ferida em sua essência, 
A erva daninha mais singela arrancará a sua honra; 
Pois o mais doce se torna amargo por seus feitos; 
Lírios mais fétidos do que as ervas daninhas.

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

154 Sonetos de William Shakespeare - Soneto nº93

Assim vivo, supondo-te verdadeira, 
Como um marido traído; assim a face do amor 
Parecerá amorosa, embora, diversa, se altere – 
Voltando a mim os olhos, e o coração, à outra parte. 
Pois em teus olhos não pode haver ódio, 
Assim nisso não percebo a tua mudança. 
De muitas formas a história do falso coração 
Se escreve em estranhas alterações de humor; 
Mas os céus, ao criar-te, decretaram 
Que em teu rosto o doce amor sempre vivesse; 
Teu olhar não expressaria senão a doçura 
Que passasse por tua mente ou teu coração. 
Tal a maçã de Eva, aumenta tua beleza, 
Se tua doce virtude não te responder em vão!

terça-feira, 6 de outubro de 2015

154 Sonetos de William Shakespeare - Soneto nº92

Embora simules a tua pior faceta, 
O fim de tua vida assegurou o meu; 
E não haverá vida além do teu bem-querer, 
Por este depender apenas de teu amor. 
Assim não preciso temer o maior dos males, 
Quando o menor deles puser fim à minha vida. 
Vejo que me cabe uma condição ainda melhor 
Do que a de depender do teu humor. 
Não podes humilhar-me com tua inconstância, 
Pois minha vida jaz em tua revolta. 
Ó, que felicidade encontro, 
Feliz por teu amor, feliz por enfim morrer! 
Mas o que é tão abençoado que não tema a mácula? 
Poderás ser falsa e, mesmo assim, a tudo ignoro.

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

154 Sonetos de William Shakespeare - Soneto nº91

A uns, o berço dá a glória, a outros, o talento, 
A uns, a riqueza, a outros, a força, 
A uns, as vestes, mesmo espaventosas, 
A uns, suas águias e cães, a outros, seus cavalos, 
E todo humor provê o seu próprio prazer, 
Vendo alegria acima de tudo o mais; 
Mas essas questões de nada me servem; 
Supero tudo isso com um único trunfo. 
Teu amor é mais que um berço de ouro, 
Mais rico que a riqueza, mais caro do que roupas, 
Mais prazeroso que águias e cavalos;
E tendo a ti, desdenho de todo o humano orgulho – 
Apenas triste por um motivo: que possas privar-me 
De tudo, tornando-me o mais infeliz.

sábado, 3 de outubro de 2015

AMOR PELA METADE

Atenção meus amigos norte-pindaibenses!

Acabo de publicar meu romance AMOR PELA METADE, no Clube dos Autores. Quem quiser acessar, aqui está o link:

https://www.clubedeautores.com.br/book/195152--Amor_Pela_Metade#.Vg9E-vlViko

Aqui, vai a sinopse, para que se tenha uma ideia do conteúdo:

O amor não é traiçoeiro. Traiçoeiro é cada um que tenta materializar os sentimentos, mesmo em detrimento da própria felicidade. AMOR PELA METADE retrata bem a leviandade levada ao extremo em uma relação amorosa intensa, cheia de senões, de expectativas, de decepções e de reencontros apimentados, de tirar o fôlego.
O indubitável sentimento de Mateus por Marisa sofre profundamente numa sequência de acontecimentos que o fazem cada vez mais perdido de amor por uma mulher de coração aberto a todos, menos ao próprio amor, que nutre, que considera, mas que tem muita dificuldade para assumir diante de uma comunidade cristã, recheada de pessoas de convicções e crenças discutíveis, mas que, à luz da própria verdade, levam essa jovem mulher a transformar a vida sentimental de Mateus numa verdadeira tragédia do coração.

Segue o amor, dos dois lados, porém sem aquele compartilhamento necessário para a felicidade mútua. Esse sofrimento de Mateus, um homem maduro, misturado ao comportamento de Marisa, uma jovem maravilhosa, de sorriso enigmático e caráter indiscutível, porém de uma leviandade que quase desmorona a vida de um homem que já havia desistido do amor, mas que encontrou um lindo ser humano, uma bela mulher, mas que se apaixonou pela sua alma.


sexta-feira, 2 de outubro de 2015

154 Sonetos de William Shakespeare - Soneto nº90

Odeia-me, se quiseres; se for agora, 
Enquanto o mundo censura meus atos, 
Une-te ao escárnio da fortuna, faze-me vergar, 
E não mais tornes a me pisotear. 
Ah, quando meu coração se afastar desta tristeza, 
Não retomes um cansado lamento; 
Que a manhã chuvosa não suceda a noite de vento, 
Para perpetuar esta proposital derrota. 
Se me deixares, não me abandones ao final, 
Após outras mágoas terem causado o seu dano, 
Mas, no princípio, para experimentar 
Antes o pior da força do destino; 
E as outras dores, que hoje assim parecem, 
Comparadas a te perder, nada mais serão.

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

154 Sonetos de William Shakespeare - Soneto nº89

Dize-me que me abandonas por um erro meu, 
E te explicarei a razão de minha ofensa; 
Dize-me que fui fraco, e eu aquiescerei, 
Sem opor defesa alguma aos teus motivos. 
Não podes, amor, desgraçar-me assim, 
Determinando a forma ante teu desejo, 
Como será minha desgraça saber a tua vontade. 
Reconhecerei a falta, e parecerei estranho, 
Ausentar-me-ei de teu lado e, em minha língua, 
Não mais viverá teu doce e amado nome, 
A menos que eu erre, por ser demais profano, 
E, alegre, revele a nossa velha amizade. 
Por ti, contra mim mesmo, jurarei lutar, 
Pois a quem odeias, jamais poderei amar.