quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

154 Sonetos de William Shakespeare - Soneto nº154

O pequeno deus do amor certa vez dormia 
Deixando ao lado sua flecha amorosa, 
Enquanto várias ninfas, jurando-se sempre castas, 
Vieram, pé ante pé, mas, em sua mão virginal, 
A mais bela tomou o fogo 
Que incendiara legiões de corações verdadeiros; 
Assim, a lança do desejo ardente 
Dormia desarmada ao lado da mão desta jovem. 
A flecha, ela mergulhou em um poço de água fria, 
Que se acendeu com o eterno fogo do Amor, 
Criando um banho e um bálsamo 
Para os enfermos; mas eu, jugo de minha senhora, 
Vim para me curar, e isto, assim, eu provo, 
O fogo do amor aquece a água, mas a água não esfria o amor.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

154 Sonetos de William Shakespeare - Soneto nº153

Cupido adormeceu ao lado de sua flecha. 
Uma das ninfas de Diana aproveitou o seu descuido, 
E rapidamente mergulhou a sua flama amorosa 
Numa fonte fria do vale que encontrou pelo caminho, 
E logo tirou do sagrado fogo do Amor 
Um calor vivo, eterno, permanente, 
Criando um banho balsâmico, onde 
Há cura para tantas estranhas doenças. 
Mas aos olhos da amada acendeu-se a flecha do Amor, 
Com que o menino ingênuo tocou o meu coração; 
Eu, desvalido, quis me curar em suas águas, 
E corri apressado, como um hóspede triste e destemperado, 
Mas não me curei; o banho para minha cura está 
Onde Cupido acendeu sua chama: nos olhos do meu amor.

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

154 Sonetos de William Shakespeare - Soneto nº152

Ao amar-te sabes que sou falso; 
Mas mentes em dobro ao dizer que me amas; 
Quebraste os votos nupciais e tua nova crença, 
Ao jurar novo ódio após um novo amor. 
Mas por que de duas quebras de juras te acuso, 
Quando quebro vinte? Sou mais perjuro, 
Por fazer juras para enganar-te, 
E toda fé sincera perco em ti; 
Pois jurei mil vezes tua brandura, 
Jurei teu amor, tua verdade, tua constância, 
E, para iluminar-te, fiz os cegos verem, 
Ou fiz jurarem contra o que viam. 
Pois jurei seres bela – olhos mais perjuros – 
Jurando uma inverdade tão grande quanto a mentira.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

154 Sonetos de William Shakespeare - Soneto nº151

O amor é muito jovem para ter consciência: 
Embora quem desconheça que esta nasça do amor? 
Então, gentil mentiroso, não me apresses, 
Minha culpa decresce quão mais doce teu ser for. 
Pois, se me traíres, trairei 
A parte mais nobre do meu corpo – 
Minha alma diz que ele 
Triunfará no amor; a carne prescinde da razão; 
Mas, elevando-me ao teu nome, te transformo 
Em seu prêmio mais dileto. Orgulhoso disso, 
Contenta-se em carregar seu pobre fardo, 
Impor-se aos teus casos, tombar ao teu lado. 
Prescindo de consciência para chamá-la 
De amor – amor por que me ergo e tombo.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

154 Sonetos de William Shakespeare - Soneto nº150

Ó, que força usas para teres tanto poder 
Que não deixa meu coração se desviar? 
Fazer-me mentir diante do que vejo, 
E jurar que a luz não abençoe o dia? 
Desde quando adoeceste tudo, 
Que em negar teus próprios atos 
Há tanta força e mostra de talento, 
Que fazem teus defeitos superar teus dons? 
Quem te ensinou a fazer-me amar-te mais ainda, 
Por mais o que eu ouça e veja só cause o ódio? 
Ah, embora eu ame o que outros odeiam, 
Como eles, não deverias me ter horror. 
Se tua falta de valor fez que eu te amasse, 
Mais valia tenho por amares a mim.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

Feliz Natal!

154 Sonetos de William Shakespeare - Soneto nº149

Como podes, ó cruel, dizer que eu não te ame, 
Quando, contra minha vontade, a ti me entrego? 
Não penso em ti, quando esqueço 
De mim, por tua causa, brutal tirana? 
A quem odeias, que chamo de amiga? 
A quem rejeitas, que adulo e acaricio? 
Não, se me desprezas, não me vingo 
De mim mesmo com pesar profundo? 
Que mérito me diz respeito, 
Que, por orgulho, despreze teu serviço, 
Quando o melhor de mim venera teus defeitos, 
Sob o jugo e mando de teus olhos? 
Mas, amor, me odeia, pois agora sei o que queres; 
Amar a todos que te veem, e que eu te seja cego.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

154 Sonetos de William Shakespeare - Soneto nº148

Ó, vida! Que olhos o amor me deu 
Que não correspondem ao que vejo? 
Ou, se for verdade, o que houve com meu julgamento, 
Que censura mal o que corretamente veem? 
Se for justo o que meus falsos olhos vislumbram, 
O que é o mundo se dissermos que ele não o é? 
E se não for, então, o amor bem prova 
Seu olhar não ser tão verdadeiro: não, 
Como é possível? Ah, como pode o Amor ver bem, 
Se está tão ocupado em mirar e prantear? 
Não há surpresa, assim, que meus olhos vejam mal; 
O próprio sol não vê senão quando o dia está claro. 
Ah, astuto amor! Cegas-me com tuas lágrimas, 
Para que meus bons olhos não vejam tuas iníquas falhas.

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

154 Sonetos de William Shakespeare - Soneto nº147

Meu amor arde como febre, ansiando ainda 
O que por muito tempo causou-me mal-estar; 
Alimentando o que me mantém doente, 
Para satisfazer o apetite incerto e doentio. 
Minha razão, o médico do meu amor, 
Zangado por sua prescrição não ser seguida, 
Abandonou-me e, eu, desesperado, agora sei 
Que meu desejo é a morte que a ciência pôs de lado. 
Não tenho mais cura, não tenho mais razão, 
Enlouquecido em eterno desassossego; 
Meus pensamentos e minhas palavras são de um louco, 
À parte da verdade expressa em vão; 
Pois te jurei ser autêntico, e acreditei-te iluminada, 
Tu, que és negra como o inferno e escura como a noite.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

154 Sonetos de William Shakespeare - Soneto nº146

Pobre alma, centro do meu mundo de pecado, 
Alimentando as forças rebeldes que alinhas, 
Por que hás definhado de miséria e fome, 
Pintando teus muros com suntuosas cores? 
Por que gastas tanto, pagando tão pouco, 
Com a mansão onde vives em desagrado? 
Os vermes, herdeiros desse excesso, 
Comerão o que gastas? Este é o fim de teu corpo? 
Então, alma, vive com o que desperdiça o teu servo, 
E deixa a gula consumir os teus bens; 
Compra o céu vendendo as horas de fastio; 
Alimenta o teu estômago e despende toda a tua riqueza. 
Assim, sustentas a morte que mantém os homens, 
E, uma vez morta, a morte estará extinta.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

154 Sonetos de William Shakespeare - Soneto nº145

Estes lábios que a mão do Amor criou, 
Entreabriram-se para dizer, “Eu odeio”, 
A mim que sofria de saudades dela: 
Mas, ao ver meu estado desolado, 
Seu coração se tomou de piedade, 
Repreendendo a língua, que, sempre tão doce, 
Foi gentilmente usada para me exterminar; 
E ensinou-lhe, assim, a dizer, novamente: 
“Eu odeio”, alterou-se, por fim, sua voz, 
Que se seguiu como a noite 
Segue o dia, que, como um demônio, 
Do céu ao inferno é atirado. 
“Eu odeio”, do ódio ela gritou, 
E salvou-me a vida, dizendo – “Tu, não”.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

POBRES SEM-ZAP

Grande parte dos brasileiros acordaram mutilados nesta manhã. Por quê? Porque lhes foi tirado um membro do corpo. Talvez o mais importante de todos – o WhatsApp.
Infelizmente vivemos em um mundo onde as pessoas vivem sem comida, sem água e sem qualquer outra coisa, porém morrem se ficarem um dia sem o telefone celular.
Interessante é que essa é uma invenção bem recente, que os quarentões só conheceram na idade adulta, porém há jovens que nem conseguem imaginar que alguém conseguia viver sem essa arma mortífera até pouco mais de uma década.
Sim. Arma mortífera sim. Mortífera para os relacionamentos. Mortífera para os cuidados das pessoas umas com as outras. Mortífera para o diálogo entre as pessoas. Mortífera para a educação dos filhos.
Não são raros os casos em que pais e mães deixam de cuidar de suas crianças com a esfarrapada desculpa de “responder a uma mensagem rapidinho”. Às vezes, esse responder rapidinho vara a madrugada, enquanto crianças dormem tortas no sofá ou varam a noite também respondendo a um torpedo rapidinho.
Queimar alimentos ou deixar de cumprir compromissos por se ocupar no celular é o de menos. O pior é queimar as relações, os casamentos, os namoros, as amizades, o contato físico. Hoje, há doentes que não conseguem mais apertar as mãos, abraçar ou relacionar-se pessoalmente, pois a única forma de interação que conseguem é pelo WhatsApp.
Os consultórios de psicólogos e psiquiatras estão cada vez mais repletos de velhos, idosos com menos de trinta anos, que não conseguem entender os problemas de saúde mental. Daqui a pouco, essas mesmas pessoas estarão frequentando as clínicas de fisioterapia para recuperarem os dedos e a coluna, pois a única posição que conhecem é sentado com meia bunda, com uma perna erguida, com o pescoço encurvado e os olhos fixos na tela do celular.
Maldito progresso que enfeitiça as pessoas e traz-lhes uma terrível ilusão de interatividade que nada mais é que uma camuflagem do ostracismo e da individualidade em que vivem as sociedades modernas que não se sabe aonde vai chegar, como esse novo modelo de se curtir as amizades, as relações e até o amor.
Nunca consegui entender certos comportamentos de algumas pessoas, cujas atitudes não encontram explicações nesta vida. Entretanto, basta olhar o tamanho de suas listas no telefone, que saberemos que seu ambiente virtual se torna cada vez mais superior aos contatos pessoais.
A confiança agora é nos amigos que estão do outro lado da linha, nunca em quem está ali, compartilhando o melhor que a vida oferece: a presença.
Cria-se coragem para tudo quando se está conectado. E assim, os beijos e os abraços passam a não ser mais tão importantes. O amor, bem, o amor, será que existe mesmo? O que é isso? Amor... há pessoas que não conhecem isso, e fazem desse belo sentimento apenas um detalhe. Muitos ainda usam o sexo, mas para matarem um desejo físico, uma curiosidade ou mesmo para atender a uma safadeza que não pode ser totalmente compartilhada em redes sociais.
Assim, passa a ser apenas uma necessidade física, até o momento em que não se conseguir resolver sozinho, pois infelizmente, nesta seara que nós mesmos criamos, já há gente que nem se quer se preocupa com os prazeres que só podem ser conseguidos pessoalmente.
Vivem numa penumbra cinzenta, num mundo ilusório de que se é feliz conectado. Conectado a quê? Conectado a quem? Há contatos que nem mesmo sabemos se são seres humanos, e se o são, nem mesmo temos ciência se são homens, mulheres, bons, maus, padres, pastores, bandidos, cientistas ou sabe-se lá o quê.
Nas redes sociais tudo pode. Tudo é possível. Materializam os sentimentos e vivem iludidos num mundo virtual que não ultrapassa o limite do ecrã.
Há loucos travestidos de modernos que confiam mais nos contatos de sua lista telefônica do que naqueles que ajudam de verdade na labuta do dia-a-dia. Conversam mais com os ilustres desconhecidos que dentro do próprio lar, que nem mais deveria ser chamado assim.
Há quem aprecia se vangloriar do fato de ficaram por horas conversando com os “amigos” via internet. Para medir o valor dessas amizades, basta fazer o seguinte julgamento: gasta-se tanto tempo on line concversando com o pai, com a mãe, com o irmão ou com a irmã? Evidentemente que não. Aí, vem a questão: será que há no mundo on line alguém mais importante que nossa família, ou com sentimentos mais verdadeiros que aqueles que dividem conosco as primeiras alegrias e todas as tristezas?
Isso apenas reflete uma ilusória sensação de prestígio e de querer bem. Infelizmente, estamos nos transformando numa sociedade tão materialista, tão fútil e tão leviana que o excessivo tempo com o outro só é gasto quando existe algum interesse por detrás das letras enviadas. Com o irmão, a irmã, os pais, o assunto começa e termina em menos de duas frases, em questão de segundos. Se o assunto é profissional, também acaba rápido.
Enquanto isso, passa-se a noite inteira em conversas repetitivas que nada trará de novo, e repetirá a mesma ilusão de sempre. A ilusão de grande aceitação, de muito reconhecimento que, a bem da verdade, não aguentaria mais que cinco minutos na mesa do restaurante ou no banco da praça.
Pena que o WhatsApp voltou tão rápido. Quem sabe sem ele as pessoas teriam redescoberto o prazer de conversar. Que abraçar é bom, que beijar é ótimo e que namorar é maravilhoso.
Sim, estas coisas existem. Certo que muitos nunca experimentaram, e quando o fizeram foi somente para dar uma satisfação à sociedade. Mas esses sentimentos de bem-estar existem entre as pessoas. Mesmo depois das redes sociais, essas coisas existem, porém os atores é que estão cada vez mais escassos.

Sabe-se o que acontece com o “amigo” lá de Singapura, do Japão e de Marte, mas nem sempre sabemos que nosso vizinho ao lado tem algo muito interessante  a nos contar.

154 Sonetos de William Shakespeare - Soneto nº144

Tenho dois amores que me consolam e desesperam, 
Que, como dois espíritos, me inflamam; 
O anjo bom é um homem belo e justo, 
O mau, uma mulher malintencionada. 
Para arrastar-me ao inferno, meu lado feminino 
Tenta meu anjo bom e companheiro, 
Querendo de santo transformá-lo em demo, 
Seduzindo sua pureza com a soberba. 
E se meu anjo se tornar vil, 
Suspeito, embora não consinta em dizê-lo; 
Mas, sendo ambos meus, ambos meus amigos, 
Creio que um anjo seja o inferno do outro. 
Mesmo que eu nunca saiba e viva em dúvida, 
Até que meu anjo mau se livre do meu anjo bom.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

154 Sonetos de William Shakespeare - Soneto nº143

Vê, como a dona de casa que cuidadosa corre 
Para agarrar uma ave que lhe escapou, 
Põe de lado o seu rebento, e cuida rápido 
De pegar aquilo que ela quer reter; 
Enquanto seu filho preterido a mantém atenta, 
Ele chora para atraí-la, chamando a si o seu cuidado 
Para que busque o que lhe fugiu das mãos, 
Deixando de lado a infelicidade de seu pobre .lho; 
Então, persegue o que foge de ti, 
Enquanto eu, teu bebê, sigo-te logo atrás; 
Mas, se ainda tens esperança, volta-te para mim 
E faze o papel de mãe – beija-me e sê gentil. 
Então, rezarei para que tenhas teu Will, 
Se te voltares e ouvires o meu pranto.

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

154 Sonetos de William Shakespeare - Soneto nº142

O amor é meu pecado, e o ódio, tua doce virtude, 
Ódio por meu pecado, de um amor pecaminoso: 
Ah, se comparares o teu estado ao meu, 
E não achares seus méritos reprováveis; 
Ou, se forem, não por teus lábios, 
Que profanaram seus rubros ornamentos, 
E selaram falsas juras de amor tanto quanto eu; 
Roubando outros leitos de seu uso. 
Seja dito que te amo, como amas aqueles 
Que atraem teus olhos como os meus te importunam: 
Planta, em teu coração, a piedade que, quando crescer, 
Mereça a tua compaixão ser compadecida. 
Se procuras ter aquilo que ocultas, 
Pelo teu exemplo te seja negado!

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

154 Sonetos de William Shakespeare - Soneto nº141

Por crer, não te amo com meus olhos, 
Pois eles em ti veem mil defeitos; 
Mas é meu coração que ama aquilo que desprezam, 
Que, apesar de ver, se comprazem com o que sentem. 
Nem se alegram meus ouvidos ao som de tua língua; 
Nem sentimentos doces nascem de teu toque, 
Nem sabor ou perfume são bem-vindos 
A qualquer festim sensual a que me convides: 
Mas meus cinco sentidos não podem 
Dissuadir um coração tolo de servir-te 
Que deixas imperturbado como um homem, 
Escravo e vassalo de teu coração altivo: 
Somente em desgraças conto os meus ganhos, 
Pois aquela que me faz pecar, também me faz sofrer.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

154 Sonetos de William Shakespeare - Soneto nº140

Sê tão sábia quanto és cruel; não pressiones 
Minha contida paciência com muito desdém, 
A menos que o pesar me dê palavras, e estas 
Expressem como me sinto diante da minha dor. 
Se eu pudesse te ensinar a ter mais juízo, melhor seria, 
Embora não a amar, mesmo que o amor me diga isso; 
Os enfermos, quando a morte se aproxima, 
Só esperam que os médicos os salvem. 
Se eu me desesperasse, enlouqueceria, 
E em minha loucura, posso falar mal de ti. 
Este mundo tornou-se tão doente e distorcido, 
Que loucos ouvidos aceitam loucas calúnias. 
Que eu não me deixe levar, nem sejas difamada; 
Mantém os olhos firmes, mesmo orgulhosa de coração.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

154 Sonetos de William Shakespeare - Soneto nº139

Ó, não me chames para justificar os erros 
Que tua grosseria derrama sobre meu coração; 
Não me firas com teu olhar, mas com tua língua; 
Usa a força contra mim, e não me mates por capricho; 
Dize que amas a outro, mas sob a minha vista, 
Querida, evita olhar para o outro lado; 
Para que ferir-me com destreza quando usas 
Mais força do que eu para me defender? 
Deixa-me desculpar-te: “Ah, meu amor sabe bem 
Que sua beleza tem sido minha inimiga, 
E, portanto, afasta de mim meus inimigos, 
Para que de longe lancem suas injúrias”. 
Porém, não faças isso; por estar quase morto, 
Mata-me agora com teu olhar, e livra-me da dor.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

154 Sonetos de William Shakespeare - Soneto nº138

Quando minha amada jura ser verdadeira, 
Eu a creio, embora saiba que ela mente; 
E pense ser eu um jovem inconsequente, 
Desconhecendo as falsas nuanças deste mundo. 
Assim, em vão, pensando que ela me julgue novo, 
Sabendo que meus melhores dias já se foram, 
Simplesmente acredito em sua torpe língua; 
Em ambos os lados, a mera verdade é suprimida, 
Mas, quando ela não diz ser injusta? 
E quando eu não digo que sou velho? 
Ah, o maior dom do amor é parecer sério, 
E, no amor, a idade não quer ser dita: 
Assim, minto com ela, e ela comigo, 
E mentindo, em nossos erros, nos deleitamos.

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

154 Sonetos de William Shakespeare - Soneto nº137

Tu, cego e tolo Amor, que fazes aos meus olhos, 
Que não veem o que está diante deles? 
Eles conhecem a beleza, e sabem onde ela jaz, 
Embora o bem nos custe tão caro. 
Se os olhos, corrompidos pela parcialidade, 
Ancorassem na baía onde todos trafegam, 
Por que da falsidade de teus olhos forjaste ganchos, 
Para prender a eles o que julga o meu coração? 
Por que deve meu coração prever este ardil, 
Sabendo ser o lugar-comum deste grande mundo? 
Ou meus olhos, ao verem, digam, não é verdade, 
Para emprestá-la a uma face tão vil? 
No que era certo, erraram meus olhos e meu coração, 
E agora a esta falsa praga se entregam.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

154 Sonetos de William Shakespeare - Soneto nº136

Se tua alma te impede que eu me aproxime, 
Jura à tua cega alma que sou teu Will, 
E o desejo, tua alma sabe, aqui cabe; 
Pois o meu amor preenche a minha doçura. 
Will preencherá o tesouro do teu amor, 
Sim, encherá até a boca, e apenas com o meu desejo. 
Naquilo que aceitamos, logo comprovamos 
Somente o que preferimos. 
Assim, entre vários, passo despercebido, 
Embora eu seja único para ti; 
Pois nada me detém, então, não me impeças 
Que eu te seja doce e gentil. 
Ama apenas o meu nome, e o amor que ele contém, 
E assim me amas, pois meu nome é Will.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

154 Sonetos de William Shakespeare - Soneto nº135

Todos têm seu desejo, tu tens o teu, 
E Desejo de dar, e Desejo à mancheia; 
Mais do que devo, eu ainda a perturbo, 
Acrescendo sempre mais ao teu desejo. 
Senão, quem deseja de modo largo e prazeroso, 
Sem esconder o meu desejo no teu? 
O desejo em outros parecerá gracioso, 
E em mim não pode ser aceito? 
O mar, os rios recolhem as águas da chuva, 
E, abundantes, somam-se às suas reservas; 
E tu, rica em Desejo, aumenta o teu Desejo 
Com o meu para fazer crescer ainda mais o teu. 
Não matemos os amantes injustos e pouco gentis; 
Pensa apenas em mim e, em mim, neste Desejo teu.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

154 Sonetos de William Shakespeare - Soneto nº134

Assim, agora confesso que ele é teu, 
E estou empenhado à tua vontade, 
Mentirei, para que, por outro lado, 
Me devolvas o direito de me consolares. 
Mas não o farás, nem ele não será livre, 
Por seres ávida e, ele, gentil. 
Aprendeu, com certeza, a subjugar-se 
Àquilo a que apressadamente se submete. 
Tomarás as regras de tua beleza, 
A usurária que tudo desperdiça, 
E aciona o amigo que se endividou por mim; 
Perco-o graças ao meu grosseiro abuso. 
A ele, perdi; e tu perdeste a ele e a mim; 
Ele paga tudo, mas não me livro, mesmo assim.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

154 Sonetos de William Shakespeare - Soneto nº133

Maldito o coração que faz o meu gemer 
Pela profunda ferida que causa a mim e ao meu irmão! 
Não bastasse torturar a mim somente, 
Mas ainda escraviza meu terno amigo? 
Arrancaste-me de mim com teu olhar cruel, 
E a meu semelhante desprezaste mais ainda. 
Por ele, por mim, e por ti, fui abandonado – 
Um tormento triplo a ser suportado. 
Prende meu coração em teu peito de aço, 
Mas o coração do meu amigo liberta o meu; 
Quem me guardar, deixa meu coração guardá-lo; 
Não podes ser tão severa ao aprisionar-me. 
E mesmo assim o fazes; porque, sendo teu, 
Dou-me a ti, e tudo que tenho em mim.

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

154 Sonetos de William Shakespeare - Soneto nº132

Teus olhos, que amo, sentem pena de mim, 
Sabendo que teu coração me atormenta com o desdém, 
Vestiram-se de preto, e enlutaram-se amorosos, 
Assistindo à minha dor com compaixão; 
E, em verdade, o sol da manhã não se assenta 
Sobre as pálidas faces do nascente, 
Nem a estrela brilhante que precede a noite 
Glorifica tanto o solene poente, 
Quanto os olhos enlutados te ficam bem. 
Ah, deixa que assim pareça ao teu coração 
Prantear por mim, pelo luto te fazer bem, 
E da mesma forma a tua compaixão. 
Então, jurarei que a beleza é negra, 
E avesso o rosto que não se assemelhe ao teu.