quarta-feira, 8 de julho de 2015

SOPHYA

Nunca compreendi bem por que meu pai escolhera esse nome para mim, no meio de tantos outros e no meio de tanta contradição de minha mãe, minhas tias e minha madrinha. Ele contava, sorrindo, que amava ver a cara da minha tia Emília reclamando que os rapazes iriam me chamar de Sophy, que isso seria ridículo. E quando falava sobre a insatisfação de minha mãe, então, parece que tinha prazer em ouvir-lhes mil vezes as justificativas novamente.
Na verdade, minha mãe queria que meu nome fosse Maria Antonieta, no que meu pai, coruja desde cedo, retrucava, olhando para meu rostinho inocente, achando uma covardia alguém me chamar ao colo dizendo “vem cá, Antonietinha”. Ah, para ele isso seria demais para uma criança tão bela, tão pequeninha e tão frágil.
Enfim, ganhou a queda de braço e acabei me chamando Sophya. Para a alegria de meu pai, eu sempre amei meu nome, tinha prazer de dizer que era Sophya com PH, não uma Sofia comum, mas Sophya chique, com PH e tudo que rodeia a musicalidade do nome.
Fato é que foi tudo como meu pai planejara. Em casa, era Sophya pra lá, Sophya pra cá, na escola, a mesma coisa. Na rua, os vizinhos me tratavam como se eu fosse filha de cada uma daquelas casas agradáveis. Acho que dei sorte de chegar ao mundo no momento que as pessoas do quarteirão não tinham nem filho nem cachorro, aí o carinho ficou só para mim.
E isso enchia meu pai de orgulho.
Foi assim que fui crescendo até que, quando menos esperava, estava na adolescência. Com meus onze ou doze anos, já despertava os olhares do rapazes, sempre com muita boa vontade em relação à minha figura. Era uma menina magra, mas com as partes muito bem distribuídas sobre duas pernas precocemente desenvolvidas, uma cintura moldada e os cabelos cacheados que paravam nas costas. Tudo isso só servia para aumentar o orgulho, o zelo e a preocupação de meu pai que, a essa altura, já não gozava de uma saúde tão privilegiada quando na minha infância.
Assim, não foram as poucas vezes em que se fazia de coitado para tentar me impedir de sair para minhas festinhas adolescentes, sempre com aquelas frases feitas do tipo “seu pai está um velho”, “eu não posso sofrer preocupações”, ou ainda: “você vai acabar se enrascando com um desses cachorros aí e abandona seu pai”. Tudo isso era apenas para tentar manter a princesa ao seu lado, tentar preservar a inocência de criança.
Aos treze anos, o primeiro beijo de verdade. Não aqueles beijos das brincadeiras de “caí no poço”, mas beijo mesmo, de língua e tudo. Beijo que esquentou dos pés à cabeça. Foi quando compreendi o que as meninas da escola falavam, nas brincadeirinhas, quando lançavam pensamentos diversos, sendo que um deles era que beijo é igual a um ferro elétrico: liga em cima e esquenta embaixo.
Se bem que, no meu caso, não esquentou apenas embaixo. Correu-me um calor que mudou a temperatura desde a unha dos pés até o último fio de cabelo. Foi uma sensação muito diferente. Fiquei pensando se todos os beijos seriam assim. Logo percebi que não. Infelizmente. Mesmo os beijos seguintes com aquele menino bonito e inteligente da escola já não me despertavam tanto interesse.
A coisa foi ficando tão monótona que cheguei a pensar que nunca mais teria a chance de sentir o fogo correr pelas veias, despertado por um beijo. Achei que a sensação do medo do novo, a ansiedade para deixar de ser BV – boca virgem – como as colegas de classe diziam, o medo de meu pai saber, o medo de o menino falar mal de mim, enfim, toda essa sorte de coisas, transformou aquele primeiro beijo num acontecimento transcendental. Aquilo era como se a beleza do universo parasse sobre mim, transformando-me numa mulher.
Sim. Agora, uma mulher. Afinal, tinha dado o primeiro beijo. Doce ilusão! Ainda havia tanta coisa para acontecer, que poderia dar um livro...

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Como toda menina colegial de família, passei a fase da adolescência entre sonhos e suspiros, de vez em quando um beijinho em algum menino interessante. Isso já era suficiente para despertar nas amigas as maiores curiosidades. Estaria namorando? Estaria apaixonada? É esse sua grande paixão?
Qual nada!
Gostava assim à primeira impressão, mas era muito centrada nos estudos, eles não tinham paciência e acabam optando por outra colega da turma e eu ia alimentando meus sonhos de um dia ter meu grande amor. Sabia que não estava ali, mas que haveria de existir.
Afinal, como poderia expor toda aquela vasta literatura que conhecia dos romances mais inesquecíveis que percebi através dos livros de romances? Vivia me imaginando travestida em uma daquelas personagens. Aquelas mulheres deveriam ser muito felizes. Às vezes, sofriam por amor, mas no final, sempre ficavam com o homem de suas vidas e viviam um amor dos sonhos de qualquer mulher. Haveria de ser assim comigo também. Afinal, não viviam todos dizendo que eu era maravilhosa? Que eu era das mais lindas do colégio? Então, um dia haveria de chegar que o homem de minha vida entraria por uma porta, me tomaria nos braços e se transformaria no meu príncipe dos sonhos.
Só que os príncipes não costumam ir aos supermercados, pois têm quem o faça por eles. E não seria ali naquele supermercado, mergulhada na gôndola de xampu e esmaltes que poderia estar meu príncipe dos sonhos.
Ou poderia?

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O tempo passa para todos. Passou também para mim. Quando completei meus 18 anos, já havia terminado o colégio com absoluto êxito e já me preparava para entrar na universidade, o que, para meus pais, era fato totalmente certo. Iria fazer vestibular em várias universidades, sempre em fisioterapia, minha paixão.
Na verdade, essa paixão se desenvolveu quando, ainda adolescente, tive uma torsão forte e me vi obrigada a frequentar uma clínica. Lá, vi o cuidado das pessoas para com uma criancinha, ainda bebê, que sofrera um torcicolo no pescoço. No início, aquele pequeno ser mal conseguia chorar tamanha a imobilidade provocada pela lesão. Os dias foram passando e, quando deixei a clínica, a criança já sorria, brincava e até colaborava com o próprio tratamento. Foi o suficiente para me apaixonar por fisioterapia.
Estava eu ali naquele supermercado, procurando um xampu que desse certo com meus cabelos, já que não andava satisfeita com o que vinha usando. Mesmo tendo cabelos lindos e sedosos, vivia numa verdadeira guerra com os produtos de beleza dos cabelos, acho que é coisa de mulher.
No momento em que me agachei para apanhar um objeto cuja queda da prateleira havia provocado, bati com a testa na gôndola e acabei fazendo estrago maior, derrubando vários produtos. Indignei-me, a princípio, mas logo caí em mim que aquilo era coisa corriqueira e fui apanhar os objetos.
Para a minha surpresa, estavam todos no lugar e um rapaz me entregava minha bolsinha que havia despencado na confusão. Sorriu franzindo a testa e balbuciou um “aqui está, gata” entre os dentes, enchendo meu espírito de um sentimento nunca antes experimentado. Era um homem de estatura mediana, devia ter uns trinta anos, pouco acima do peso. Nada que pudesse estremecer uma mulher. Uma figura simples, normal, enfim. Agora, o que me levou a ter aquela sensação diferente é que me deixou por dias atormentada.
Nunca ficara impressionada com qualquer tipo de rapaz que se aproximasse, sei que até me chamavam de fria, insensível, mas aquilo não estava em mim. Realmente não me interessava facilmente por rapazes, tanto que nunca passava de uma paquera de alguns dias. Alguns diziam que eu me achava a tal, e que escolhia demais, mas o fato é que meu coração não pertencia a quem quer que fosse.
Alguns dias já se haviam passado, sem que aquela figura saísse da minha mente. Como podia, um encontro fortuito de alguns segundos se tornar tão maçante?

Aquilo foi me incomodando tanto que resolvi voltar ao mesmo local do supermercado para viver a sensação novamente. Procurei vestir até a mesma roupa e fui para ver se experimentava novamente aquela sensação gostosa. Entrei naquele recinto toda receosa, como se todas as pessoas me olhassem com reprovação pela minha atitude, um tanto infantil para quem já pensa em curso universitário.
Lembrei-me de que sou ser humano e, que, como tal, tenho direito aos meus momentos de infantilidades. Entrei sem que alguém me notasse. Claro, afinal quantas pessoal devem entrar em um supermercado durante um dia comercial? Por que razão haveria alguém de me reconhecer? Afinal, nunca havia sido frequentadora de supermercado.
Aquela, entretanto, era uma situação especial. Precisava descobrir o que acontecia dentro de mim, por ficar tanto tempo pensando em alguém que nem ao menos conhecia.
Fui à mesma gôndola e, como deveria ser, nada de especial poderia haver para me esclarecer o que quer que fosse. Apenas produtos ordenados, incrivelmente ordenados, sempre obedecendo às normas do trade marketing, que orienta para que os produtos da mesma família fiquem ordenados de forma a facilitar a vida do consumidor, não sendo necessário idas e vindas ao mesmo local. Tudo certinho, como deveria ser.
Como era de se esperar, nada de novidade. Afinal, quem poderia ao menos saber o que se passava na minha cabeça? Se contasse a alguém, no mínimo, chamariam de coisa de adolescente mal resolvida. O jeito era ir para casa. E fui.
Ao passar pelo caixa, vi um documento pendurado. Para minha surpresa, era minha cédula de identidade, nos achados e perdidos. Descobri, então, que aquele documento eu perdera no dia em que derrubei os produtos na gôndola. Informei que o documento me pertencia e ele me foi devolvido.
Só que, ao devolver o documento, a funcionária brincou com a colega que Rayner estava errado, pois pensara que o documento fosse de outra pessoa. Indaguei a respeito e elas me disseram que um rapaz conhecido vivia no supermercado, perguntando pela menina da identidade, mas que pensava ser de uma moça que havia conhecido por acaso na loja.
Claro que fazia sentido, mas preferi esquecer o assunto e ir para casa. Ao chegar, percebi que o documento estava estragado e algo fora colocado ali no meio do plástico rasgado. Quando abri, quase caí dura: havia um papel dobradinho com o nome de Rayner e o telefone. Gelei.
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Os próximos dias eram de férias na escola, pois já havia concluído o curso médio e o preparatório para o vestibular. Ficava em casa o tempo todo, e na minha cabeça nada passava além da vontade louca de pegar o telefone e ligar para aquele homem. Mas dizer o quê? Que era a estabanada que derrubara tudo no supermercado? Isso já tinha uns três meses, ele provavelmente não se lembraria. Só que, quanto mais o tempo passava, mais aumentava a minha vontade de telefonar.
Nesse tempo, eu saía com um rapaz que conhecera na formatura, já havia uns seis meses de relacionamento e a cosia tendia a ficar séria. Ele cada vez mais empolgado. Confesso que comecei a me ligar, mas aqueles segundos de olhos fixos no supermercado mudaram toda a rotina do meu coração. Acho que agora estava mudando a rotina até da minha vida. Em menos de um mês faria vestibular fora de minha cidade pequena e, se tudo desse certo, iria para a universidade em menos de dois ou três meses. E aí, abriria mão de rever Rayner de novo? Deixaria isso no passado? E o que fazer com João Ricardo, cada vez mais entusiasmado com o namoro? Como explicar que conhecer um rapaz mais velho e que me empolgara a ponto de desistir de uma relação que tudo tinha para se tornar sadia e segura?
Nesses pensamentos, nem vi o tempo passar. Já devia ser mais de meia-noite, quando adormeci. Só me lembro de ter acordado no dia seguinte com uma profunda dor na alma. Sentia que o mundo me escolhera para sentir todas as más sensações. Estaria apaixonada por alguém que nem conhecia? Que coisa mais louca, logo eu, que nunca me interessara de verdade por qualquer rapaz.
Sentia na alma uma dor infindável, no coração, uma sensação de que sempre estava faltando alguma coisa. No peito, queimava o ardor de um desejo que nem se despertou. E nos olhos, um brilho confuso, sem saber se era por desejo ou por angústia. Era um misto de surpresa e agonia, de desejo e de dúvida, de tristeza e paixão.
Paixão?
Aquela sensação me causou tremendo espanto. Revi todos os meus pensamentos e sentimentos.
Chorei.
Chorei profundamente. Eram as primeiras lágrimas que se derramavam para a vida.
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Telefonei.
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Após secar as lágrimas, tomei-me de uma coragem dantesca. Fui teclando os números e, a cada número, meu coração disparava como se fosse sair pelos lábios. Gente, que eu estava fazendo? Meu pai jamais aprovaria uma atitude dessa. Logo eu, menina séria, de família, namorando sério. Pelo menos aos olhos da minha família e de João Ricardo, eu estava namorando sério. Se alguém descobrisse minha atitude, como explicar um telefonema a um homem desconhecido, que deixou o número no meu documento perdido no supermercado?
Não. Definitivamente, não.
Desliguei o telefone e caí na cama, tapando o rosto com as mãos, como se aquilo fosse apagar todos os pensamentos e sentimentos. Como se aquilo fosse desfazer a minha iniciativa de telefonar a Rayner.
Como se aquilo o impedisse de ver meu número no telefone dele.
Meus Deus! Não havia pensado nisso... e agora, se ele retornar, o que fazer?
Nem deu tempo de pensar, o telefone já tocava e o número era aquele mesmo. Corei. Gelei. Pensei. Não sabia o que fazer.
Atendi.
Claro que procurei fazer uma voz doce e saudável. Quando ouvi a voz do outro lado da linha, quase estremeci. Fiquei alucinada. Queria pedir desculpas e dizer que tinha ligado errado, mas não deu tempo. Logo ele perguntou se eu era Sophya, que estava muito feliz pela minha ligação.
Fiquei em pânico! Como ele sabia que era eu? E como poderia se lembrar, depois de tanto tempo?
O jeito foi confirmar. Pedi mil desculpas, expliquei que não deveria ter ligado. Tolice! Ele já ria, radiante, do outro lado, como se acabasse de ganhar um troféu. Falava como se já me conhecesse. E mais: falava como se eu já fosse do seu ciclo, como se fôssemos velhos conhecidos.
Quando tentei explicar novamente, ele me pediu para falar pessoalmente. Fiquei por um tempo paralisada. Será que seria bom ver aquela figura novamente? Será que se ele tentasse alguma coisa comigo, eu resistiria? Acabei concordando, mas pedi que fosse em um local com muitas pessoas, não queria correr o risco de alguém me ver conversando com um estranho, além do perigo natural de se falar com alguém tão distante do nosso meio.
Foi então que ele me aconselhou procurar uma pessoa no supermercado e falar sobre ele. Foi bom, pois a menina me explicou tudo: tratava-se de um profissional do ramo de logística, que eventualmente prestava serviço ao supermercado. Ainda fui informada de que era solteiro, descomprometido e que havia se impressionado muito comigo. Que sempre que ia ao supermercado queria saber sobre mim, porém sem sucesso, já que eu não tinha afinidade com aquelas pessoas dali.
Foi bom saber essas coisas. Deu uma segurança para pensar em ir a um possível encontro. Mas e, quanto ao João Ricardo? Nenhum namorado entenderia, logicamente, esse tipo de justificativa. Mentir nunca foi o meu forte. Por outro lado, como poderia terminar um namoro que caminhava para dar certo por causa de uma pessoa que, na verdade, nem conhecia?

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Telefonei, enfim, e marcamos. Fomos a um restaurante discreto, numa manhã de domingo, muita gente. Felizmente nem um conhecido por ali. Conversa informal, porém muito cativante. Aquele homem era algo diferente de tudo que eu vira. Desde o beijo na mão até a abertura da porta do carro, tudo perfeito. Sem contar que era um verdadeiro lord em delicadeza, simpatia e cavalheirismo. Tudo que qualquer mulher sempre sonha para sua vida. Exatamente tudo que a menina do supermercado havia dito quando lá estive para me informar. E muito mais...
Toda a conversa foi muito informal. Somente papo acerca de costumes, família, amigos, preferências. Descobri que, como eu, amava MPB e música clássica. Também era amante de um bom vinho e adora lugares com muitas pessoas. Apaixonado por crianças.
Pensei cá com meus botões “será que aquele homem existia”.
Existia sim. Estava bem ali na minha frente, sem me assediar, mas não escondendo que, ao primeiro sinal meu, estaria à minha disposição. Confesso que fiquei balançada. Já me imaginava naqueles braços fortes a curtir devaneios, a dançar pelos bailes da cidade. Já imaginava quando me telefonasse, aquela voz linda e firme falando aos meus ouvidos. Nem vi o tempo passar. Quando deixamos o local, já era tarde, quase noite.
Chegamos ao carro e, como não poderia ser diferente, abriu-me a porta e entramos. Assim que nos isolamos do mundo cá fora, ele baixou o tom de voz e disse pausadamente que “eu era a melhor companhia que tivera em toda a sua vida, e que repetiria quantas vezes eu quisesse, tamanha a sua satisfação por estar ao meu lado”.
Retruquei que nada houve de especial, no que ele disse me olhando dentro dos olhos que “nada houve ainda, mas assim que eu aceitasse, tudo aconteceria”. Ainda acrescentou que desde o primeiro contato, não parara de imaginar coisas inesquecíveis que nos poderiam acontecer.
Eu estava de cabeça baixa. Quando me ergui, quase desvaneci com aqueles olhos enormes dentro dos meus. O seu olhar me atravessava e me invadia. Era como se o mundo todo estivesse ali, me olhando, me acusando de estar fazendo algo proibido, inimaginável para uma comprometida moça de família.
“E então?” Foi só o que ele me disse, sorrindo um sorriso enigmático que se tornaria eternamente congelado na minha mente.
Perdi as forças. Sinceramente, tudo que eu queria era me atirar aos braços daquele homem e viver a maior emoção da minha vida. De um lado, a emoção me empurrava para o prazer. Um prazer verdadeiro que, certamente, nunca experimentara. Mas de outro lado, a razão me lembrando de que havia na minha vida um homem simples, muito honrado e que, mesmo eu não tendo de fato assumido, já fazia parte da minha vida.
O tempo foi se escurecendo, a noite chegava. A conversa agora não era mais de gentileza, mas rendia um clima de desejo incontrolável.
Dos dois lados.
De súbito, senti que um fogo começava a me queimar desde as unhas até os fios de cabelos. Aquilo lembrava meu primeiro beijo lá no início da adolescência. Tentei me controlar, mas ele percebeu.
Nisso, veio se aproximando, chegando perto até que eu podia sentir sua respiração ofegante. Parecia colocar fogo pelas ventas e acho que eu também estava assim. Ele se aproximou o mais que pôde sem, contudo, me tocar. Ficamos muito próximos.
Eu queria gritar para ele se afastar, mas era tão bom aquilo. Nunca sentira um desejo tão alucinante. Parecia que o mundo estava rodando, que nada faria mais sentido.
Não fez mesmo.
Aquela aproximação foi encurtando a distância até que nossos lábios se misturaram, numa frenética sensação de prazer que transformava nossas bocas em uma só.
Ficamos ali, naquele longo beijo, e quando terminou, eu me sentia a mulher mais feliz do mundo, ao mesmo tempo que me sentia fútil, por estar apreciando o prazer do beijo de outro homem, mesmo comprometida.
A sensação de prazer era mais forte e não resistimos. Aquela cena se repetiu algumas vezes até que chegamos aonde um casal que se deseja pode chegar. Aquilo era demais para mim. Jamais tinha sentido o prazer de verdade com alguém. João Ricardo era sempre tão carinhoso, tão servil, homem tão bom. Acho que não existia quem não gostasse dele. Eu sabia que não o amava, mas era conveniente aquele namoro, todo certinho.
Todas as minhas amigas tinham namoro sério e, por isso, eu achava correto namorar sério também. Como João Ricardo sempre se dizia apaixonado por mim desde muito cedo, acabamos namorando e a vida seguia.
Agora, ali estava eu, num domingo, quase virando a noite, nos braços de um homem que praticamente não conhecia. Era mais forte que eu, foi só o que pensei, antes de adormecer nos braços de Rayner para o meu primeiro sono verdadeiramente de mulher.
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Meu coração gelou quando João Ricardo enviou mensagem perguntando “o que eu andava aprontando”. Ele não costumava usar esse tipo de expressões, então tive medo de estar sabendo algo sobre o que acontecera no dia anterior. Para conseguir me encontrar com Rayner, havia dito que visitaria uma tia distante e que seria necessário ir somente com outra parente. A história ficou bem tecida, mas mentir realmente nunca foi o meu forte.
Enfim, estava somente brincando e disse que sentiu muita saudade. Assim, passou o primeiro dia após aquele encontro que mudaria minha vida para sempre.
Dias depois foi o vestibular e, pelo jeito, fui bem. Quando retornei a casa, entretanto, comecei a sentir algumas dores estranhas. Por preocupação, meus pais me levaram a um posto médico e fui informada de que nada haveria com que se preocupar.
Só que a frase dita pelo médico me transfigurou. Entrou sorridente dizendo um “parabéns, mamãe” que se talhou juntamente com meu sangue, levando-me às profundezas da decepção.
Meus pais ficaram estupefatos. Acho que não imaginavam nem que a filha já era uma mulher, muito menos que estava grávida. O jeito foi conversar em casa, pois perceberam a minha cara de espanto, medo e insegurança quando o médico deu a notícia.
Talvez pela situação em que fiquei com a notícia, meus pais pegaram mais leve e conversaram gentilmente. Nisso, chega João Ricardo, um misto de felicidade e preocupação com a reação que poderia vir de meus pais. Entretanto, na conversa que tiveram – pois eu mesma nada falei – concluíram que seria necessário que nos casássemos.
De uma vez, criei coragem e disse que o havia traído. Minha mãe se assustou, mas João Ricardo e meu pai apenas riram muito e acharam que eu dissera aquilo para não me casar. No fim das contas, acreditaram que era isso mesmo, tive que me render e aceitar a ideia do casamento.
Em questão de dias, tudo estaria pronto para o grande evento, pois meus pais não queriam que as pessoas soubessem da gravidez precoce. Mesmo eu argumentando que estávamos quase no terceiro milênio, de nada adiantou; não queria sua filha “falada”, como explicou.
Uma semana antes do casamento, Rayner retonrou e corri para lhe explicar o ocorrido. Expliquei que o nosso envolvimento nada tinha a ver com isso, e que eu teria mesmo que ceder aos desejos de meu futuro marido e meus pais e me casar. Claro que ele ficou transfigurado, foi quando percebi que aquele homem realmente nutria um interesse muito acentuado por mim.
“O que vou fazer com esse sentimento?”, ele repetia seguidamente. “Você não poderia ter aceito a pressão”. Eu argumentava que não teve como fugir. Cheguei a falar que saíra com outro, mas ninguém deu ouvidos, e pensavam todos que eu estava apenas tentando evitar assumir a responsabilidade.
No final das contas, acertamos que iríamos nos afastar, pois não faria sentido estar casada com um homem e vivendo um romance paralelo com outro, ainda que apenas na mente. Como se a gente pudesse dominar os pensamentos e os sentimentos.
Antes do casamento, ainda nos encontramos às escondidas, para despedidas intermináveis. Nas duas oportunidades, contei a João Ricardo, mas ele sempre dizia que eu era muito boba, que dizia aquilo apenas para evitar o casamento, mas que não queria sujar o nome da minha família.
Enfim, tive que me casar, mesmo com Rayner na minha cabeça.
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Ao descer no local da recepção da festa, uma amiga de infância me confidenciou que havia um presente especial, escondido para mim. Na primeira oportunidade, fui ao local onde me indicou e encontrei um embrulho dourado com laços azuis. Quando li o cartão, quase caí dura. Ele dizia:
“Amor de minha vida, sei que os eventos por que passamos nem sempre condizem com o que pensamos. O que nos aconteceu foi uma fatalidade do destino. Infelizmente, precisamos nos afastar, mas quero que saiba que este amor estará para sempre no meu coração, até o dia em que decidir trocar as obrigações pela felicidade. Eu te amo. Incondicionalmente”.
Nem precisou assinar, pois ninguém no mundo poderia dizer palavras que fossem tão diretamente ao meu coração.
Chorei.
Quando consegui me restabelecer, retornei ao salão e encontrei todos já comemorando, como se aquilo fosse uma coisa realmente importante para mim. João Ricardo estava de dar dó: buscava falar com todos, queria a opinião dos amigos sobre a cerimônia, sobre a festa, sobre mim. Discutiam sobre o nome de um possível bebê. Eu estava lascada: realmente, havia me condenado a viver com o homem errado para o resto da vida.
Meus Deus, como pude deixar que isso acontecesse? Eu tinha só 19 anos, poderia argumentar de todas as formas, mas não deveria ter me casado. Agora, tudo que mais queria era me atirar aos braços de Rayner e dizer-lhe que era o amor de minha vida.
Só que esperava um filho de João Ricardo e isso mudava tudo. Saí ao jardim e vi uma senhora alta, forte. Ela me chamou pelo nome e me disse bem baixinho que “procurasse entender os acontecimentos, que, quando se ama, tudo contribui para o bem”. Nada entendi, mas retornei à sala para conversar com os convidados.
Não suportava mais aquela festa quando o último convidado se foi. Era o momento da lua de mel, nada de especial para tem a cabeça e o coração em outro lugar.
Não teve jeito. Eu, que já me prometera não me relacionar mais com João Ricardo desde que me apaixonei por Rayner, não tivera nem tempo de encontrar uma justificativa para colocar fim no namoro.
Que arrependimento! Como fui me deixar envolver tanto, não havendo amor? É aquela velha história de que, se todas estão amando, eu também devo fazer o mesmo. Assim, aceitei João Ricardo como primeiro homem de minha vida, mas sentia que, seguramente, não seria o último.
Assim, transcorreram os próximos dias, João Ricardo morrendo de amor e eu morrendo de tristeza por ver cada vez mais distante meu ideal de felicidade. Para João Ricardo, fazer amor todos os dias era uma questão quase que obrigatória lá em casa. E aquilo me doía! Não conseguia me envolver nem mesmo como nos tempos de solteira, antes de conhecer Rayner.
Ficava cada vez mais indignada com o fato de, mesmo com a modernidade, ter me deixado envolver a ponto de assumir tamanha responsabilidade, mesmo com o pensamento em outro lugar. Quando me achava triste, tinha receio e medo de falar do assunto. Limitava-me apenas em dizer que estava tudo bem, que era coisa da gravidez.
Perdi a matrícula na faculdade porque no período estava internada em um hospital. Certa manhã, tive tremenda indisposição e me levaram para o hospital, onde fiquei por mais de uma semana. Nada entendia e ninguém me falava nada. Somente quando saí do leito e me encaminharam para a psicóloga foi que percebi o que havia acontecido. Havia tido uma complicação na gravidez e precisaria ficar em total repouso, cercada de cuidados até o nascimento do bebê. E ainda faltavam dois meses.
Consegui, enfim. Agora, era, além de esposa que precisava ser dedicada, mãe. Mãe de um bebê lindo, todo corado, pesado e muito risonho.
Engraçado que os traços lembravam Rayner. Estranho sentir aquilo, afinal, a descoberta da gravidez foi logo após nosso encontro.
Não. Não havia chance de aquela criança ser de Rayner. Decidi tirar isso da cabeça e concentrar mais na família. Afinal, assumira o compromisso.
Certo. É assim que tem que ser. Casei-me. Agora, pertenço a uma nova família e meu trabalho é cuidar de um marido apaixonado e de um filho lindo. Assim que preciso agir, e tirar Rayner definitivamente da minha cabeça. Não faz sentido, afinal, ele já deve estar em outra. Não ficaria me esperando tanto tempo.
Isso mesmo. Não ficaria. Sem sentido. Vamos agradecer a Deus pela experiência que valeu a pena e seguir em frente.
Com esse pensamento foi que vi Lucas completar dois anos, fazendo mil travessuras, conversando tanto que nos vimos obrigados a levá-lo mais cedo para a escola para aproveitar tamanha desenvoltura.
Sim. Agora, a família segue em frente. Sem lembranças. Sem Rayner.
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Aquele dia, deixei Lucas na escola e resolvi passar pelo supermercado. Agora, dona de casa, as visitas a esse tipo de estabelecimento passaram a ser mais frequentes.
Nem percebi que estava na mesma gôndola onde um dia conheci Rayner. Ao me lembrar disso, ri sozinha. Que coisa aquilo, derruba os artigos do supermercado e se envolve com um desconhecido.
Ri sozinha.
De repente, percebi que algumas coisas caíram da prateleira. Puxa, eu nem havia me mexido e aquelas coisas caindo. Fui apanhar, enfim.
“Nosso filho está bem?” foi o que ouvi quando me abaixei para apanhar os itens caídos.
Gelei.
Era Rayner.
Meus Deus, ele disse “nosso filho”. Estranho, será que saberia da semelhança do menino com ele?
Não, não poderia ser. A vontade era de abrir um buraco no chão e me atirar. Ele levou a mão à bolsa e retirou uma foto de uma criança de uns dois ou três anos e me entregou.
Quase gritei que “aquele era o meu Lucas”.
Ele, com o enigmático sorriso contagiante, explicou que não, aquele não era o Lucas; era Rayner, na idade do Lucas.
Aquilo foi o suficiente para acabar com o meu dia. Saí em desesperada carreira e fui parar na porta da escola de meu filho, talvez com o instinto protetor de mãe. Ali fiquei até o final do turno e levei meu filho para casa.
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Rayner tentava, em vão, me explicar que não queria o meu fracasso, que nada faria para me prejudicar, mas que achava por bem fazer um teste de DNA para ter certeza da paternidade de Lucas. Briguei muito com ele, mas sabia que tinha razão.
Na verdade, revendo as datas, havia realmente um prazo de alguns dias entre nosso encontro e a descoberta da gravidez. Além disso, naquele período, evitava João Ricardo, sempre com vários tipos de desculpa, mais tarde compreendidos pela gravidez que surgira. Decidi que faria o teste, sim, mas que exigia sigilo e nenhuma atitude por parte de Rayner em caso de positivo.
Depois disso, toda vez que via meu filho, enxergava aquele homem que eu insistia em tirar da minha cabeça, mas que estava cada vez mais dentro de mim.
Ia para a cama com João Ricardo, sempre nos relacionávamos antes de dormir. Ele dormia e eu ficava ali com meus pensamentos. E se Lucas fosse filho de Rayner? Não seria justo para João Ricardo, mas como contar a ele a verdade? E meus pais? E Lucas? Difícil situação que me roubava metade das noites de sono.
Coisa chata, pois sempre relutei em casar. Praticamente fui empurrada para o altar, contra todos os meus desejos. Isso era o único ponto favorável a mim, afinal repeti várias vezes que não queria me casar.
Combinei com Rayner de fazer o tal teste de DNA. Naquele dia, já me levantei ansiosa. O mundo parecia que não me cabia. Fomos bem cedo. Ao chegar ao local marcado, para a minha surpresa, ele estava em um táxi e me mandou entrar.
Argumentei que ali era a clínica, mas ele se atirou sobre mim, beijando-me ali mesmo e dizendo que nunca havia se esquecido um único minuto de tudo que nos aconteceu.
Confesso que tentei resisti. Em vão. Em alguns minutos, estava fazendo o melhor amor de todos em um local muito agradável. Nem dei por mim, quando ele me pediu para me casar com ele.
Como, meu Deus? Eu já era casada com João Ricardo, tinha um filho para cuidar, como poderia me casar com Rayner?
Mas que foi interessante ser pedida em casamento pelo meu grande amor, isso foi. Minha autoestima foi lá pra cima e me senti uma grande mulher naquele momento. Sorri. Mas foi um sorriso mudo, tão triste que parecia a revelação de uma tristeza infinita.
Rayner percebeu e disse que emoções inesquecíveis estariam à nossa espera, que era questão de tempo. Ouvir aquilo era bom, mas me metia um medo incorrigível. O que aquelas palavras realmente diziam? Eu o conhecia tão pouco, o que ele pretendia fazer? E se fosse o pai de Lucas, quais medida poderia querer? Um menino tão lindo, tão inteligente, meu Deus, aqueles pensamentos me encheram de medo.
Comecei a chorar copiosamente. Só que Rayner estava ali. Começou a me acariciar e a me garantir que tudo ficaria bem. Sentia um grande conforto e me parecia que ali estava meu verdadeiro marido. Fiquei extasiada de tanto carinho, amor e confiança que aquele homem me passava.
Naquele clima, estivemos juntos por toda a manhã. Almoçamos juntos e fiquei tranqüila, pois uma grande amiga ficara de cuidar dos compromisso do Lucas enquanto estivesse fora.
Aí que dei por mim. Estava traindo meu marido. Eu já fizera isso quando solteira e quase morri de arrependimento, embora tivesse sido tão bom. Agora, era diferente; era mãe de família, deveria ter responsabilidade. Minha cabeça girou e meus pensamentos não encontraram qualquer justificativa para estar ali, à mercê de um relacionamento totalmente impróprio para os padrões de família. Pelo menos na minha família.
Só que tudo ainda era mais forte do que eu. Não conseguia segurar a pressão de ter diante de mim o único homem a quem amara na vida.
De repente, do nada, tomando uma taça de vinho, Rayner abriu a pasta e retirou de lá um envelope. Dentro havia um papel, que me entregou fechado. Quis saber de que se tratava e ele me ordenou que abrisse.
Abri e congelei. Ele já tinha o resultado do exame de DNA. POSITIVO. Não, aquilo deveria ser um sonho, um pesadelo, uma brincadeira, não poderia ser verdade. Como faria? Como levar essa notícia para casa?
Indaguei como fizera o exame, mas ele explicou que minha amiga sabia o quanto eu era infeliz. Então, resolveu colaborar, oferecendo material genético do Lucas para os testes. Claro que isso não era legal, mas era verdade.
Não foi possível raciocinar... como seria agora?
Não foi mais possível curtir qualquer momento. Agora, era ir para casa e esperar os próximos acontecimentos. Quando abri o portão, diante dos meus olhos, João Ricardo, correndo feito louco com Lucas, numa frenética de alegria de pai e filho.
Foi assim que entrei pela primeira vez na minha casa depois de ter certeza de que João Ricardo não era o pai de Lucas. Eu, ali, paralisada; os dois, lá, naquela euforia.
Aleguei uma dor de cabeça. Tomei algum remédio e fui para o quarto. Adormeci, como se a passagem daquela noite fosse me devolver a paz de que precisava para começar a escrever o novo capítulo da minha vida.
oOo
O novo dia já trouxe uma sensação de culpa muito grande à minha cabeça. Pela primeira vez me conta de que deveria ter insistido mais em não me casar. Não imaginava que aquele filho pudesse ser de Rayner. Afinal, havia sido uma única vez antes da notícia. Mas era. Isso era definitivo. Não sabia o que fazer com tudo que ocupava minha cabeça agora
Por desejo eu não vinha me encontrando com Rayner, embora esse desejo jamais me tivesse abandonado. Agora, talvez por medo das consequências que pudessem surgir, passei a aceitar seus convites para saídas rápidas.
Já percebera que ele não era homem de fazer chantagens. Mas agora era um filho. Comprovadamente um filho que estava em questão. E qualquer tentativa dele em direção a provar isso arruinaria minha vida para sempre. Seria um escândalo.
Descobri também que os aparentes trinta anos eram, na verdade quarenta. Aquele era um homem realmente muito conservado pela idade. Isso já nem me importava mais. Agora, ele ter a minha idade ou ser duas décadas mais velho não me metia medo nem preconceito. Eu amava aquele homem e isso era definitivo.
Em uma dessas saídas, ele me propôs que me separasse e me casasse com ele. Fiquei transtornada. Como fazer isso? Como iria pelo menos iniciar essa conversa com João Ricardo? Por outro lado, até quando eu viveria de ilusão, infeliz e buscando algo a mais para uma vida que se transformara numa bomba de pavio curto?
Um dia, ao chegar à minha casa, resolvi contar a João Ricardo toda a verdade. Comecei contando do supermercado, quando derrubei as coisas. Fui levando a conversa até o momento do encontro com Rayner. Disse que havia me impressionado. Como vi que ele não se surpreendia, contei até o ocorrido, que nós havíamos nos amado e fiquei esperando pela decisão terrível dele.
Para minha surpresa, ele disse que respirava aliviado, que morria de medo de eu sonhar com uma dessas aventuras depois de casados. Disse que aquilo deveria ficar no passado para seguirmos em frente.
Não tive coragem de contar toda a verdade, mas sabia que era questão de tempo.
Lucas crescia. Quando chegou aos 12 anos, já era praticamente a cara de Rayner. A essa altura, Rayner havia se estabelecido definitivamente na cidade e estava ainda mais disponível. E quanto mais sés aproximava, mais aumentava meu amor e meu desejo por aquele homem.
A faculdade que tanto imaginava lá na adolescência foi simplesmente esquecida. Saiu da minha escala de valores, em nome do verdadeiro amor por um filho, e do amor clandestino por um homem que me transformava apenas com um olhar.
Certa vez, estávamos juntos e perguntei a Rayner se ele pretendia um dia contar a Lucas a verdade. Afirmou que não, que jamais faria qualquer coisa para deixar nosso filho atormentado. Sim, saber algo assim seria uma transformação na cabeça de um pré-adolescente. Melhor deixar tudo como estava, disse naquele dia.
Tentei me afastar de Rayner. Aquilo não era correto, mas quanto mais eu me afastava mais me sentia em seus braços. Parecia coisa de cinema, não havia uma atitude que não me aproximava ainda mais dele.
Certo dia, chamei João Ricardo de Rayner. Ele se corou todo, mas não disse nada. Apenas saiu de perto e não nos falamos mais naquele dia. À noite, quando chegou, eu já dormia e assim se foi a noite sem que houvesse qualquer coisa naquele tema.
No café do dia seguinte, silêncio mortal.
Chegou um momento em que não me contive e perguntei o que havia. Claro que eu sabia o que havia, só não imaginava que João Ricardo soubesse. Ele levantou os olhos e, atravessando-me com um olhar triste, confessou que desconfiava de tudo, que não me deixou ir em frente quando tentei porque não estava preparado para a verdade.
Desceram-lhe lágrimas e pediu para que não o abandonasse, nem ao nosso filho. Disse saber pelos outros do meu envolvimento com outro homem, mas se limitou a dizer apenas que “um dia ainda vou te esquecer”.
Aquilo me abalou profundamente.
Assim que Lucas entrou no prédio da escola, eu me dirigi para o shopping, onde Rayner me esperava. Aquilo não era vida. Eu não poderia continuar mentindo para mim mesma, muito menos para minha família.
Nestes pensamentos, entramos ao quarto do luxuoso hotel e, quando dei por mim, estava novamente vivendo meu conto de fadas.
Um amor que começou e terminou em uma tarde, mas que parece ter durado a eternidade. Tudo que ocorreu naquela tarde ficou para sempre congelado na minha memória.
Decidi, ali, que nunca mais impediria meus impulsos em relação ao amor e à felicidade. Quando me afastei, fiz um balando de tudo que me ocorrera desde o início.
Chorei.
Chorei sozinha no meu quarto vazio e triste. Alguém telefonou, era Lucas avisando que demoraria um pouco mais na biblioteca da escola.
Quando o telefone tocou, devolvendo-me ao mundo real, tive que secar o rosto para sair à varanda. Estava com o rosto todo molhado, numa mistura de felicidade, desejo e regisnação.
Aquelas, sim, eram as verdadeiras lágrimas de mulher. Despertavam-se para a vida. Feliz, naquele momento. Os próximos capítulos seriam uma questão de esperar, pois o que me unia a Rayner não havia começado neste mundo. Nem terminaria nele. Era algo inexplicável. Aquilo transformou minha vida. Todos os sonhos se foram, todas as vontades se concentraram num único e prazeroso momento em toda uma vida: o momento de estar a sós com Rayner.
Isso passou a ser tão frequente quanto almoçar e jantar. Meu mundo era iluminado quando estava vivendo aquele grande amor. Mesmo ciente de tudo que estava em volta, esse foi o caminho que encontramos para a felicidade. Viver. Viver sempre, aproveitando cada segundo que nos era permitido.
Foi assim que vivi aquele fatídico dia do velório de Rayner, vítima de um acidente fatal.

Hoje, sofro com a perda e com a saudade. Descobri que esta é uma suava e triste maneira de amar.

154 Sonetos de William Shakespeare - Soneto nº28

Como posso, então, retomar o feliz sofrimento
Ao ser impedido da bênção do descanso,
Quando a opressão do dia não cessa à noite,
Mas se oprime, dia e noite, noite e dia,
E ambos (embora inimigos por natureza)
Consintam em cumprimentar-se para me torturar,
Um por obrigação, o outro, por queixume
De que eu trabalhe ainda mais distante de ti?
Digo ao dia, para agradá-lo, que és luz,
E dou-lhe graças quando as nuvens cobrem o céu;
Assim louvo a escura tez noturna,
Quando as estrelas não brilham e tu refulges sozinha.
Mas o dia prolonga meus pesares,
E a noite faz a tristeza parecer ainda maior.