quinta-feira, 16 de julho de 2015

154 Sonetos de William Shakespeare - Soneto nº34

Por que me prometeste um dia tão belo
E me fizeste viajar sem meu manto,
Deixando que nuvens baixas cobrissem meu caminho,
Ocultando tua bravura em seu lacerado fumo?
Não basta que irrompas as nuvens
Para enxugar a chuva em meu rosto abatido,
Pois nenhum homem poderá dizer uma oração
Que cicatrize a ferida sem curar a desgraça.
Nem poderá tua vergonha revelar minha dor;
Embora te arrependas, ainda assim perderei;
A tristeza do ofensor pouco alivia
Aquele que carrega a pesada cruz da ofensa.
Ah, mas as lágrimas são pérolas que o teu amor verte;
Elas são valiosas, e resgatam todos os males.

Cidade Virtual

Acordou cedo, colocou o café na caneca... Pegou o jornal; observou que não havia nenhuma manchete, só as chamadas cheias de sangue, morte, drogas e um pouco do desenvolvimento da cidade. A cada página foleada, um gole de café compunha o automatismo de todas as manhãs. Resolveu parar na folha de desenvolvimento, para a sua surpresa os avanços expostos eram surpreendentes.

Tão surpreendentes, que ele logo fez uma lista:

  • Virada Cultural;
  • reforma da Lagoa do Paulino;
  • reforma do Parque Náutico da Lagoa da Bela Vista;
  • “reforma” de algumas praças;
  • novas sinalizações de transito e radares;
  • recapeamento de algumas vias públicas;
  • obras de reforma da margem do Córrego do Diego;
  • capitação das águas do Rio das Anciãs;
Após terminar a lista, ficou em uma postura tão pensativa que fazia jus a uma das obras de Auguste Rodin, cena que só foi quebrada por um discurso cheio de vigor e esperança não vista há muito tempo naquela figura.

– Até que fim o progresso chegou! E vou me esbaldar nele depois do serviço, #PartiuPraVer!
...
Final do expediente...
A labuta do dia já resolvida. Pegou o smartphone, ligou o pacote de dados e foi direto para o Zap Zap. Entrou em contato com seu amigo Saulo, um músico de renome na cidade.

– Eai Saulo, blz?
– Baum meu fi
O q apronta?
– Nada por enquanto. Tem como tirar uma dúvida?
– bora
– Como foi a virada cultural para os artistas da cidade?
– Uma bosta!!!
os editais custaram a sair para os artista da cidade e no fim quem mais ganhou foram os artistas fora.
Porque do interesse?
– Nada não, só tirando uma dúvida mesmo.
t+
Fwl
*flw
– Flw!


Após a breve conversa, ticou o primeiro item da lista e ficou de prontidão para ver os outros. Um de oito não faz mal, pensou rapidamente, pior sete de oito! Um breve e quase imperceptível sorriso saiu de seu rosto. Ainda na internet, pesquisou os jornais da cidade no banco de dados do Calameo. Pois teve uma lembrança sobre a reforma da Lagoa do Paulino, a obra ficou parada por meses.

A lembrança foi tiro e queda, e a pesquisa lhe rendeu o final daquele quebra-cabeça, a reforma não foi feita, pois a empresa que venceu a licitação não conseguiu terminar a obra por falta de verbas próprias e após meses outra empresa tomou-lhe o lugar. O empreito realizado quase que por ambas consistiu em: esvaziar um pouco a lagoa e trocar os bancos que só necessitavam de uma reforma de alvenaria. Infeliz com o resultado desligou o pacote de dados e seguiu para o estacionamento. 

Pagou o estacionamento, pegou as chaves do carro e foi tomar um sorvete no Parque Náutico da Lagoa da Bela Vista. Já com o sorvete na mão tomou um susto, o piso do palco central foi trocado pela segunda. Andou um pouco e observou que as únicas mudanças reais eram: o fim do Mini Zoológico que se transformou em área de prática de esportes radicais, a duas trocas de piso do palco central, a falta de “uns” bancos, uma nova mão de tinta e a feira popular no domingo.

Terminou o sorvete, a única coisa que era doce no amargo que sentia ao perceber o roubo. Entrou dentro do carro e resolver voltar por um caminho diferente do habitual, refletiu: mudanças fazem bem pra mente. Girou a chave, prosseguiu viajem. A primeira coisa que achou no novo caminho foi um senhor quebra-molas que se não fosse um pouquinho mais baixo daria para um caminhão passar sem relar o eixo. Mais a frente pode observar que as placas de sinalização prevista para a Copa do Mundo foram instaladas, percebendo o Padrão FIFA da coisa! 

Em um momento de distração quase tomou uma multa por excesso de velocidade, já que, não sabia do novo radar instalado no final da ladeira. Chegou em casa!
...
Desnorteado...
Pegou sua bicicleta e resolveu dar uma volta pelo bairro, notou que algumas ruas foram recapeadas e outras não. Lembrou-se que poucas das principais vias tiveram urgência no serviço e que nas demais possivelmente residia alguém “importante”.

Seguiu em direção à praça, cruzou as margens em reforma do Córrego do Diego. Observou que vários caminhões de terra eram retirados, um pouco mais a frente viu as obras de capitação de água do Rio das Anciãs e seu único pensamento foi: será mesmo rio vai dar conta da demanda de água, já que a fabricante de cerveja estava consumindo 60% de água do município, ocasionando a seca da Lagoa Crescida e o desabastecimento em vários bairros.

Chegou à praça, não encontrou nenhum amigo. E o que pode perceber foi que a dita reforma não passou de uma mão de tinta, gramado novo e a reforma da tela da quadra. Nenhum serviço na parte de alvenaria, objeto essencial da reforma de uma praça velha e cheia de buracos. Seguiu para outra pracinha sem quadra e notou as mesmas coisas. Desistiu do passeio, voltou para a casa. Em meio a isso percebeu um outdoor com o título “Obras no Grotão do Bairro Israel”, falou em voz alta consigo mesmo e qualquer um que o visse o episódio pensaria seriamente em loucura ou telecomunicações.

– Não faço a mínima ideia de on..., – interrompido pela cena de um dos caminhões do Córrego do Diego que descarregava terra contaminada em um lote vago em sua rua. Ficou calado por um tempo, depois começou a fazer varias perguntas em voz alta para o vazio ou qualquer força superior que o pudesse responder.

– Onde esta todo aquele desenvolvimento? Em qual mundo eles estão por dizer A e fazer B? As melhorias? ... ou será que eles vivem em uma Cidade Virtual?

Post de número 1000