quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Recessão de Sentimentos

Decidido a acabar com a vida, pegou o galão de gasolina e a caixa de fósforos. Usaria uma arma de fogo caso tivesse. Não compreendia como havia chegado naquele ponto; abriu a tampa do galão...
...
Uma semana antes.
O pior final da tarde de um homem acabava de se formar. Naquele exato momento a palavra demitido era proferida pelo chefe, o choque da notícia deixou-o quase mudo e a única resposta foi um imperceptível ok.
No caminho para o R.H., pensava de forma desesperadora: Dez anos de firma! Como podem fazer isso comigo? E as crianças, como vão ficar? E minhas dividas?
Questionou-se até chegar.

...
Já dentro do carro, sua mente borbulhava mais e mais... Lembrou que a patroa já não era a mesma e que possivelmente a notícia geraria uma nova e longa discussão.
Pensou em parar pra beber, mas álcool não resolveria o problema e provavelmente causaria um acidente. Decidiu enfrentar seu destino sem rodeios.

...
Chegou em casa... triste, derrotado e sem chão.
Abriu a porta, mas tudo que sentia foi subjugado por um alegre coro:
– Papaiii!
Enquanto abraçava as crianças pensou: filhos são um balsamo para a alma, não importa a situação! Risonho em ver a sua prole, perguntou:
– Como vão vocês moleque e mocinha?
– Bem! – respondiam os dois em coro.
– Pai, óia o que eu fiz? – o rapazinho mostrava o seu desenho.
– Olha o meu Papai! – mostrava a mocinha.
Depois de uma intensa briga por atenção, elogiou os desenhos das crianças e foi cumprimentar a patroa, que não lhe deu muita atenção. Decidiu contar o ocorrido após o banho.
De mente e corpo limpo, revelou a situação. Pouco adiantou as explicações de como dar a volta por cima. O conflito já era certo e uma longa discussão foi iniciada, uma das piores que o casal já tivera.

...
Na manha do dia seguinte, vestiu-se rápido e pegou o celular. Com um currículo e alguns documentos na mão, foi procurar um novo emprego. Não havia tomado café. Seguiu de jejum como se pagasse uma penitência, tinha pressa em resolver seu problema. As economias mal serviam para sustentar a família por mais de três meses.
Não queria esperar o acerto ou o seguro desemprego, dez dias corridos não animavam. Assumiu a responsabilidade de pai e marido; o homem da casa! Tinha que arcar com elas.

...
Já no SINE.
Achou algumas vagas de seu interesse, porém não poderia se apresentar para as entrevistas. Pois não tinha recebido o ônus de sua antiga empresa, ficou feliz em saber que ainda conseguiria um emprego nesses tempos de crise; caso o acerto não demorasse.
Para não perder a viajem entregou sua carteira de trabalho no R.H. da empresa e ficou surpreso ao ver mais amigos na mesma situação. Sentindo-se desconfortável... foi para casa. Esperaria mais 4 dias para receber o acerto.

...
Já na rua de sua residência, percebeu um carro da polícia em sua porta.
Acelerou e estacionou o carro próximo a viatura, preocupado que algo de ruim tivesse acontecido com as crianças ou com a mulher. Para sua surpresa foi barrado por dois policiais e um oficial de Justiça.
Acabava de ser autuado em uma medida protetiva de urgência, mal entendia o que havia ocorrido. Após ler o processo, foi pego de surpresa por alguns dos termos a seguir:

  • Proibição de se aproximar da vítima;
  • afastamento do lar ou local de convivência com a vítima;
  • obrigação de dar Pensão Alimentícia Provisional ou Alimentos Provisórios.
Nunca havia batido na esposa ou nas crianças. Entendia muito bem como usar a autoridade sem usar a força. Porém a animosidade do policial deixou-o receoso.
Sem poder pegar seus pertences básicos, não esperou nenhum minuto a mais, seguiu para o endereço indicado no documento. Tinha dez dias para se apresentar na Delegacia da Mulher, mas queria resolver esse engano enquanto antes.

...
Na Delegacia...
Tomou a maior lavada da vida sem ter culpa, foi tratado como criminoso. Os direitos de igualdade de gênero e de defesa não existiam, só Júri, Juiz e Carrasco. Pegou as informações que precisavam e foi procurar um advogado, sem antes ser repreendido mais uma vez pelas autoridades. Sentiu tanto medo que abaixou a cabeça como se fosse um homem culpado pelo presente destino e foi embora.

...
Estava na rua da amargura, não tinha dinheiro, roupas ou um teto, somente lhe restou o carro. Precisava pagar um advogado. Tentou tirar algum dinheiro no caixa eletrônico mais próximo, porém notou que a conta conjunta do casal foi limpa pela esposa naquele dia. Também não tinha nenhum centavo em sua antiga poupança. Sua esposa havia lhe aplicado um golpe um golpe de misericórdia. A dor que sentia no momento aumentava a cada minuto.
Sua salvação veio de um velho amigo, já que, seus pais haviam falecido e os parentes mais próximos estavam a 500 km de sua cidade.

...
Aquela estranha figura que o ajudava era uma mistura de teórico da conspiração, maluco no pedaço e marriage strike. Mas como bem sabia, toda pessoa muito desperta é considerada louca até que, o que é dito por ela se torna uma verdade sem opções de fuga. Estava grato pela ajuda do amigo, mesmo que a casa não tivesse energia elétrica, pois estava passando por uma conversão para energia solar e a única energia elétrica da casa vinha de um gerador a gasolina.
A vida em um sítio no interior não era fácil, mas para quem não tinha onde cair morto aquilo era um luxo de um rei. O dono do sítio iria viajar naquele mesmo dia para poder comprar o restante dos painéis solares e terminar a obra.
Voltaria só daqui dois dias. Mesmo assim tranquilizou o amigo que passava por um perrengue, poderia ficar morando lá o tempo que precisasse para se reerguer e que boas companhias sempre o agradavam.

...
Gerador ligado, tomou um banho...
Ligou a TV, sentou no sofá e ouviu as notícias do país e do mundo.

Taxa de desemprego chega a 8%

Cresce o risco de um calote da Grécia.

Inflação acumulada em 12 meses chega a 8,89%, maior taxa desde 2003

Brasil pode sofrer uma possível recessão técnica na economia
Desligou a TV, as chamadas do jornal eram desinteressantes. Não estava preocupado em desemprego, calote da Grécia ou inflação. Tudo o que queria era uma recessão de sentimento, emoções como: traição, calunia e tantos outras que rondavam a sua mente. Resolveu ir para a cama, queria ver os filhos indo para a escola de manhã.
Não os via desde aquela manhã, queria saber como estavam. Tinha medo que eles ficassem traumatizados pelos acontecimentos. Fechou os olhos.
Dormiu... o sono mais inquieto de toda sua vida, seus maiores medos o assombraram naquela noite.

...
De manhã próximo a sua casa, lembrou-se da medida protetiva e da proibição de se aproximar, mas seguiu seus instintos. Quando os filhos saiam do portão para esperar a van escolar, percebeu que seu vizinho conduzia os filhos para fora de casa e que quando perceberam que o pai estava por perto gritaram e correram em sua direção.
Choro, lágrimas e um abraço apertado foi o máximo que conseguiram. A ex-patroa e o vizinho talarico foram a sua direção, uma confusão formada. Mas a van chegou, as crianças subiram. O pai garantiu que estava bem e que em breve estariam juntos de novo.
Com medo de complicar ainda mais a situação foi embora, mas antes trocou uma ofensas com o novo casal.
Passou em um boteco copo sujo, gastou os últimos trocados na compra de dois litro de cachaça. Seguiu para o sítio do amigo.

...
Bebeu; bebeu ainda mais. Queria esquecer a vida, a traição de sua mulher com seu vizinho que dizia ser seu amigo, a distância dos filhos, a perda do emprego, o roubo de todas as suas economias... A noite chegou!
Decidido a acabar com a vida, pegou o galão de gasolina e a caixa de fósforos. Usaria uma arma de fogo caso tivesse. Não compreendia como havia chegado naquele ponto; abriu a tampa do galão... o julgamento de sua vida começou.
Lembrava de tudo o que aconteceu em sua vida, o filme de sua existência transcorria em seus olhos, os primeiros amores, as aventuras e um conselho do seu pai:
– Filho, todos carregam cruzes na vida, carregue a sua. Não reclame do quanto é difícil, ou que o caminho é longo demais, nem sempre o caminho mais curto é a melhor resposta aos problemas.
Abaixou o galão, desistiu de tirar a própria vida. Acabará de participar do Tribunal da vida, aonde o Júri e o Juiz decidiram por sua liberdade.
Resolveu enfrentar seus problemas de frente como um homem, sem recessão de sentimentos. Custe o que custar!
Uma chuva fina começou a cair e com ela a sua alma foi lavada.
Um novo homem acabava de nascer.

154 Sonetos de William Shakespeare - Soneto nº58

Que Deus me perdoe, por me tornar teu escravo, 
Que eu deva pensar em velar tuas horas de prazer, 
Ou para ti contar os momentos de ansiedade, 
Sendo teu vassalo disposto a estar à tua mercê. 
Ó deixa-me sofrer, sob tua vista, 
A ausência aprisionada de tua liberdade, 
E domada pela paciência para sofrer a cada vez 
Sem te acusar de me injuriares. 
Estejas onde estiveres, teu jugo é tão forte, 
Que podes privilegiar teu tempo 
Para o que quiseres; a ti somente cabe 
Perdoar-te por teus próprios crimes. 
Devo aguardar, embora esperar seja o inferno, 
Sem culpar teu prazer, seja ele o mal ou o bem.