quarta-feira, 2 de setembro de 2015

“Mulher Fatal”

Tap Tap Tap Tap...
O som do salto alto chamava atenção e com ele uma bela mulher vestida para matar seguia com pressa. Arrancava olhares por onde passava. Criava desejo e inveja!
Qualquer um poderia perceber aquela beleza de trinta anos. Independente, forte e dona de si.
Parou na frente de um prédio de dois andares, tocou a campainha. 
Um “já vai” foi ecoado do segundo andar.
Passos lentos desciam a escada em direção à porta.

– Quem é? – perguntava a Dona da casa.

– Sou eu fia! Uai, a festa ainda não começou?

– Começou, mas é só uma reunião de amigas. Tudo muito informal!

A anfitriã abriu a porta, abraçou e cumprimentou a Mulher Fatal. Subiram ao encontro da aniversariante e das outras amigas.
... 
– Onde está Clara? – perguntou a Mulher Fatal enquanto cumprimentava as primas e tia maternas da aniversariante.

– Deve estar com a amiga se arrumando no quarto! – respondia a mãe de Clara.

Após alguns minutos de conversa entre os presentes, Clara aparece. Era uma moça de estatura média, mas de beleza ímpar e feminina. Suas curvas chamavam atenção pela simetria perfeita, os cabelos negros e lisos exaltavam a mistura exótica a qual pertencia e seus olhos castanhos demonstravam uma pureza rara de se encontrar. Seus dotes físicos sobressaiam à beleza de sua amiga que era um pouco mais alta.

– Aposto que estavam fazendo mais uma sessão de fotos? – questionava a Mãe de Clara com cara de riso.

As moças riram.
...
– Clara, gostou do presente? – perguntava a Mulher Fatal após abraçar a aniversariante.

– Sim, – respondia a moça com a expressão de muita gratidão, que era um jeito meio inquieto de se mover. – e muito! Amo comida, ainda mais chocolates.

– Dezoito anos, deve estar cheia de namorados! Aproveita mesmo, arranca tudo que puder deles. Homem não presta!

– Não tenho namorado ou namorados, acho que quero ser freira. – respondia Clara com sinceridade de alma.

E com um impulso de pura ira pela resposta, a Mulher Fatal soltou os cães com a voz alterada! 

– COMO ASSIM VOCÊ QUER SER FREIRA, FAZER PARTE DESSE PATRIARCADO OPRESSOR E PRECONCEITUOSO. NÃO CONHECE NADA DA VIDA... – logo foi interrompida pela mãe de Clara.

– Mais respeito em minha casa e com minha filha! Se minha menininha tiver vocação para Freira, ela será! Guarde suas besteiras feministas para sua turma. Respeito às diferenças, desde que não inventem impor nada a mim ou minha família.

Antes que uma nova discussão começasse entre as duas, a tia de Clara interveio e a festa continuou como se nada estivesse acontecido, mas a Mulher Fatal sentia inveja de Clara. Sua beleza, juventude, feminilidade e pureza, faziam-na sentir-se mal.
E com isso, começou indiretamente um exame de consciência. Lembrou-se de como aproveitou a vida ao extremo e o peso de cada escolha que não queria assumir. Da vida ceifada de seu ventre. Dos caras legais que enrolou no passado, principalmente Nathanael que a amava.
Clara tinha tudo para ser feliz, juventude, beleza e coragem pra não seguir o cardume. Coisas que a Mulher Fatal perderá em algum ponto de sua vida e já não sabia encontrar.
...
A vela foi soprada, Clara ficou feliz.
Amava bolo e mingau, mas não esperava que seu bolo de aniversário unisse as duas paixões gastronômicas. O primeiro pedaço foi para seu amor incondicional, sua diva e guerreira mãe. Sentiu falta do irmão, porém a irmã de pais diferentes estava lá, sempre ao seu lado. Entre conversas, risadas e interesses mútuos.
...
Roubada por um momento de satisfação enquanto saboreava o bolo colher a colher. Pensou que se não fosse freira, seguiria carreira em Medicina especializada em Psiquiatria ou Neurologia. O cérebro humano a fascinava.
Estudaria o máximo para conseguir realizar o sonho! Queria ser o maior orgulho da Mãe, que sempre comentava em suas fotos um “fui eu que fiz” depois de um elogio de terceiros.
...
Do outro lado da sala estava a Mulher Fatal, já triste. Pediu desculpas a todos pelos seus atos. Estava envergonhada. Não queria perder as poucas e sinceras amigas que tinha.
A festa já tinha acabado!
Despediu-se de todos, seguiu pensativa para casa. Esperava um grande amor, o príncipe encantado. Alguém que a fizesse renascer depois de tudo o que havia feito na vida. Alguém que Clara encontraria com facilidade. Mas, o máximo que tinha conseguido foi uma narrativa parecida com A Mulher de 30 Anos de Balzac e seu único companheiro naquele momento era o barulho do salto alto.
Tap Tap Tap Tap...

154 Sonetos de William Shakespeare - Soneto nº68

Seu rosto revela o mapa de outros dias, 
Quando a beleza vivia e fenecia como as flores, 
Antes que nascessem esses malignos e belos sinais, 
Ou que ousassem vir cobrir-te a fronte; 
Antes dos dourados cachos dos finados, 
O direito dos sepulcros fossem cortados 
Para viver outra vida em outra cabeça, 
Os cachos mortos da beleza a adornar outro. 
Nele as sagradas e antigas horas se veem 
Sem nenhum ornamento, a face despida e verdadeira, 
Sem reviver com o verdor de outro verão, 
Sem roubar um velho adorno para usá-lo como novo; 
E ele como um mapa a natureza guarda, 
Para mostrar com falsa Arte como a beleza fora um dia.