terça-feira, 20 de outubro de 2015

154 Sonetos de William Shakespeare - Soneto nº102

Meu amor se fortalece, embora não pareça mais forte; 
Não amo menos, embora não demonstre tanto; 
O amor anunciado, cuja rica estima 
A língua de seu dono difunde por toda a parte. 
Nosso amor era jovem, então, na primavera, 
Quando queria saudá-lo com meus amavios; 
Como o rouxinol que canta assim que o verão principia, 
E interrompe seu trinado à espera de dias mais maduros: 
Não que o verão seja menos agradável agora 
Do que seus tristes hinos que a noite silenciam, 
Mas a louca música pesa em seus ramos, 
E as doçuras perdem seu delicioso gosto. 
Assim, como ela, por vezes também me calo, 
Para não enfastiar-te com o meu canto.

154 Sonetos de William Shakespeare - Soneto nº101

Ó, negligente Musa, que desculpas me darás 
Por faltares com a verdade tingindo-a com a beleza? 
Do belo e da verdade depende o meu amor; 
E tu, também, para te tornares digna. 
Responde, Musa: não me dirás, alegremente, 
“A verdade não precisa de tom por ter sua própria cor, 
Nem a verdade, de lápis para desenhá-la; 
Mas o bom é o melhor, se jamais for corrompido?”– 
Por ele não precisar de elogios, te entorpecerás? 
Não desculpes o silêncio; por depender de ti 
Para fazê-lo viver além da dourada tumba, 
E ser aclamado longamente no porvir. 
Assim, cumpre teu ofício, Musa; te ensinarei como 
Fazê-lo parecer profundo então como se parece agora.