quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

POBRES SEM-ZAP

Grande parte dos brasileiros acordaram mutilados nesta manhã. Por quê? Porque lhes foi tirado um membro do corpo. Talvez o mais importante de todos – o WhatsApp.
Infelizmente vivemos em um mundo onde as pessoas vivem sem comida, sem água e sem qualquer outra coisa, porém morrem se ficarem um dia sem o telefone celular.
Interessante é que essa é uma invenção bem recente, que os quarentões só conheceram na idade adulta, porém há jovens que nem conseguem imaginar que alguém conseguia viver sem essa arma mortífera até pouco mais de uma década.
Sim. Arma mortífera sim. Mortífera para os relacionamentos. Mortífera para os cuidados das pessoas umas com as outras. Mortífera para o diálogo entre as pessoas. Mortífera para a educação dos filhos.
Não são raros os casos em que pais e mães deixam de cuidar de suas crianças com a esfarrapada desculpa de “responder a uma mensagem rapidinho”. Às vezes, esse responder rapidinho vara a madrugada, enquanto crianças dormem tortas no sofá ou varam a noite também respondendo a um torpedo rapidinho.
Queimar alimentos ou deixar de cumprir compromissos por se ocupar no celular é o de menos. O pior é queimar as relações, os casamentos, os namoros, as amizades, o contato físico. Hoje, há doentes que não conseguem mais apertar as mãos, abraçar ou relacionar-se pessoalmente, pois a única forma de interação que conseguem é pelo WhatsApp.
Os consultórios de psicólogos e psiquiatras estão cada vez mais repletos de velhos, idosos com menos de trinta anos, que não conseguem entender os problemas de saúde mental. Daqui a pouco, essas mesmas pessoas estarão frequentando as clínicas de fisioterapia para recuperarem os dedos e a coluna, pois a única posição que conhecem é sentado com meia bunda, com uma perna erguida, com o pescoço encurvado e os olhos fixos na tela do celular.
Maldito progresso que enfeitiça as pessoas e traz-lhes uma terrível ilusão de interatividade que nada mais é que uma camuflagem do ostracismo e da individualidade em que vivem as sociedades modernas que não se sabe aonde vai chegar, como esse novo modelo de se curtir as amizades, as relações e até o amor.
Nunca consegui entender certos comportamentos de algumas pessoas, cujas atitudes não encontram explicações nesta vida. Entretanto, basta olhar o tamanho de suas listas no telefone, que saberemos que seu ambiente virtual se torna cada vez mais superior aos contatos pessoais.
A confiança agora é nos amigos que estão do outro lado da linha, nunca em quem está ali, compartilhando o melhor que a vida oferece: a presença.
Cria-se coragem para tudo quando se está conectado. E assim, os beijos e os abraços passam a não ser mais tão importantes. O amor, bem, o amor, será que existe mesmo? O que é isso? Amor... há pessoas que não conhecem isso, e fazem desse belo sentimento apenas um detalhe. Muitos ainda usam o sexo, mas para matarem um desejo físico, uma curiosidade ou mesmo para atender a uma safadeza que não pode ser totalmente compartilhada em redes sociais.
Assim, passa a ser apenas uma necessidade física, até o momento em que não se conseguir resolver sozinho, pois infelizmente, nesta seara que nós mesmos criamos, já há gente que nem se quer se preocupa com os prazeres que só podem ser conseguidos pessoalmente.
Vivem numa penumbra cinzenta, num mundo ilusório de que se é feliz conectado. Conectado a quê? Conectado a quem? Há contatos que nem mesmo sabemos se são seres humanos, e se o são, nem mesmo temos ciência se são homens, mulheres, bons, maus, padres, pastores, bandidos, cientistas ou sabe-se lá o quê.
Nas redes sociais tudo pode. Tudo é possível. Materializam os sentimentos e vivem iludidos num mundo virtual que não ultrapassa o limite do ecrã.
Há loucos travestidos de modernos que confiam mais nos contatos de sua lista telefônica do que naqueles que ajudam de verdade na labuta do dia-a-dia. Conversam mais com os ilustres desconhecidos que dentro do próprio lar, que nem mais deveria ser chamado assim.
Há quem aprecia se vangloriar do fato de ficaram por horas conversando com os “amigos” via internet. Para medir o valor dessas amizades, basta fazer o seguinte julgamento: gasta-se tanto tempo on line concversando com o pai, com a mãe, com o irmão ou com a irmã? Evidentemente que não. Aí, vem a questão: será que há no mundo on line alguém mais importante que nossa família, ou com sentimentos mais verdadeiros que aqueles que dividem conosco as primeiras alegrias e todas as tristezas?
Isso apenas reflete uma ilusória sensação de prestígio e de querer bem. Infelizmente, estamos nos transformando numa sociedade tão materialista, tão fútil e tão leviana que o excessivo tempo com o outro só é gasto quando existe algum interesse por detrás das letras enviadas. Com o irmão, a irmã, os pais, o assunto começa e termina em menos de duas frases, em questão de segundos. Se o assunto é profissional, também acaba rápido.
Enquanto isso, passa-se a noite inteira em conversas repetitivas que nada trará de novo, e repetirá a mesma ilusão de sempre. A ilusão de grande aceitação, de muito reconhecimento que, a bem da verdade, não aguentaria mais que cinco minutos na mesa do restaurante ou no banco da praça.
Pena que o WhatsApp voltou tão rápido. Quem sabe sem ele as pessoas teriam redescoberto o prazer de conversar. Que abraçar é bom, que beijar é ótimo e que namorar é maravilhoso.
Sim, estas coisas existem. Certo que muitos nunca experimentaram, e quando o fizeram foi somente para dar uma satisfação à sociedade. Mas esses sentimentos de bem-estar existem entre as pessoas. Mesmo depois das redes sociais, essas coisas existem, porém os atores é que estão cada vez mais escassos.

Sabe-se o que acontece com o “amigo” lá de Singapura, do Japão e de Marte, mas nem sempre sabemos que nosso vizinho ao lado tem algo muito interessante  a nos contar.

154 Sonetos de William Shakespeare - Soneto nº144

Tenho dois amores que me consolam e desesperam, 
Que, como dois espíritos, me inflamam; 
O anjo bom é um homem belo e justo, 
O mau, uma mulher malintencionada. 
Para arrastar-me ao inferno, meu lado feminino 
Tenta meu anjo bom e companheiro, 
Querendo de santo transformá-lo em demo, 
Seduzindo sua pureza com a soberba. 
E se meu anjo se tornar vil, 
Suspeito, embora não consinta em dizê-lo; 
Mas, sendo ambos meus, ambos meus amigos, 
Creio que um anjo seja o inferno do outro. 
Mesmo que eu nunca saiba e viva em dúvida, 
Até que meu anjo mau se livre do meu anjo bom.