quarta-feira, 6 de abril de 2016

O Sobrevivencialista

Aquele dia cansativo havia acabado no exato momento em que saiu do prédio aonde expôs seus estudos. A cara não era de alguém cansado pelo dia de cão, mas de alguém feliz por ter ajudado muitos com seu conhecimento.


Coçou a barba, olhou para a cruz e seguiu para a rua. Marcou de encontrar com um velho amigo que não via desde sua saída da Capital. Ajeitou a mochila e andou alguns quilômetros até chegar ao Bar do Capivara.

Bar do Capivara, um antigo refúgio dos caçadores do passado, dos entusiastas do presente ou de alguém que queira experimentar pratos de carnes exóticas. Sentado a sua espera estava seu amigo, meio impaciente com um copo de Chopp. Ao perceber a chegada do Barbudo, levantou e cumprimentou o amigo que não via há muito tempo.

– Eai seu Tubérculo enrolado, bão ou não?

– Fala seu corno, – respondia o Barbudo. – tô bem e você?

– Tô bão! O que te traz de volta a Capital?

Antes de responder ao amigo acomodou sua mochila em uma cadeira da mesa e sentaram.

– Antes de me responder aceita um chopp?

– Não obrigado, fico com um refri mesmo. Voltei para fazer uma palestra sobre sobrevivencialismo e preparação!

– Ha ha ha ha ha ha ha, – ria cinicamente o amigo do Barbudo, que logo pensou piada pronta. – então você é um daqueles malucos que pensam que o mundo vai acabar e se prepara para o fim. Quando me falaram nem acreditei, dizem que faz até vídeos para o YouTube. Você largou a vida de negócios para isso?

Após terminar a frase, riu mais um pouco da cara do Barbudo, tomou o resto do seu chopp e deu um grito para o dono do bar.

– Ó Capivara, traz uma porção de rã frita mais um chopp e um refri!

O Barbudo com a mesma calma do Rei Leônidas de Esparta, ponderou por alguns segundo e antes de dar um chute no peito do amigo e jogá-lo no fosso “sem fundo”. A resposta já estava engatilhada e o tiro foi fatal.

– Começar com desrespeito não é uma boa ideia, você é mais um iludido com o estereótipo criado pela mídia brasileira. Sempre com a mesma baboseira de Apocalipse Zumbi, Invasão Alienígena, Fim do Mundo, Apocalipse Bíblico e etc. 

– Então explique melhor o que é na verdade sobrevivencialismo e preparação, – questionava o amigo do Barbudo. – pois só vejo esse tipo de maluco na TV.

– Sobrevivencialismo é mais do que uma preparação ilusória! É a elaboração de meios para sobreviver a ameaças cotidianas, que podem ser vistas ao acessar sites, ler jornais, assistir televisão ou simplesmente andar pelas ruas.

Continuou o Barbudo agora com a atenção do amigo.

– Para você ter ideia, o nosso país é cercado por violência civil. Temos arrastões, assaltos, arrombamentos, policiais marcados para morrer e uma lista bem extensa de problemas de segurança, que podem ser prevenidos com um olhar sobrevivencialista.

– A violência no nosso país tá fora de controle mesmo. – falava o amigo do Barbudo com a cara de quem começava a ligar os fatos.

– Para resolver parte desse problema o sobrevivencialismo tem algumas solução ou dicas que passam das ensinadas pela polícia. Fazer um curso de defesa pessoal, aprender a usar uma arma de fogo, uma faca, espada ou qualquer arma medieval pode ser de grande ajuda em alguns casos. O básico mesmo é ter um EDC, que é nada mais do que kit pessoal para garantir suprimentos importantes durante as dificuldades. Outra coisa é estudar a vulnerabilidade de sua residência e solucionar o problema com câmeras, aumentar o tamanho do muro ou qualquer outro meio de proteção.

– EDC? Para que tipo de dificuldades ele serve?

– O significado da sigla é Everyday Carry, ou aquilo que você porta todo dia. São equipamentos que vão te ajudar caso algum sinistro apareça no seu caminho. O básico do EDC ou inicial é: uma lamina, uma lanterna e um isqueiro, a partir desses três itens você poderá adicionar aqueles que mais são uteis no seu dia a dia. Como: relógio, smarthphone, alicate multi-função, bloco de anotação, caneta, remédios e uma arma de fogo. Porém, no Brasil ter o porte e a posse é quase impossível por motivo de burocracia e interesses políticos. E esse fato deixa manco qualquer EDC.

O papo é interrompido com a chegada da porção e das bebidas, por um tempo o único barulhos que se ouvia era o da comida saboreada e o som do transito no horário de pico.

O Barbudo logo puxa o assunto.

– Você acha que no Brasil tem ameaças biológicas?

– Não, isso é coisa de gringo. Aqui não tem essas coisas!

– Vou te falar algumas das ameaças biológicas presentes no nosso dia a dia. Dengue, Febre Maculosa, HIV, Hepatite, Leishmaniose, além das que vieram de brinde com a copa do mundo e os refugiados sem um controle sanitário. Essas ameaças podem nos deixar presos em casa por vários dias até a chegada de socorro caso algo ruim aconteça no país. Porém, cada uma delas podem ser evitadas e remediadas com preparações voltadas para esse risco.

Com a cara de surpreso por perceber que as coisas que considerava corriqueiras no dia a dia eram ameaças biologias em potencial a sua vida, só pode pedir um exemplo.

– Me de um exemplo para evitar essas ameaças.

– Plantar manjericão ou citronela ou alecrim nas proximidades das janelas e portas pode ajudar a repelir Aedes Aegypti, mas sempre use repelente.

– Eu não sabia que manjericão e alecrim tem função de repelente.

– Tem muita coisa interessante no sobrevivencialismo que é desconhecido da população. Um exemplo é a autossuficiência, ser autossuficiente na coleta de água de chuva, produção de energia, plantio de alimentos e em processamento de lixo orgânico, pode ajudar a economizar muito dinheiro. Caso essas posturas fossem incentivadas pelo governo, a economia do mesmo seria gigantesca. E o melhor de tudo isso, é saber a procedência de seus alimentos, já que, são orgânicos e você controla a cadeia produtiva.

– Que isso Tubérculo, eu fui enganado por toda minha vida!

– Não, você foi adestrado a não saber isso. O supermercado sempre te supre, então para que se preocupar! Os móveis, casas e apartamentos cada vez menores, só um louco não perceberia. É Just In Time da vida moderna, não ter estoque de nada por mais de um mês ou uma semana. Basta uma greve dos caminhoneiros ou uma estrada destruída para entrar em desespero por falta de recursos.

– Não tinha pensado por esse lado.

– É meu amigo, as pessoas não pensam nisso. São ovelhas que seguem lobos disfarçados de cães pastores.

– O que é o mais importante para ser um sobrevivencialista?

– Treinamento! Treinar em ambiente controlado de todas as formas possíveis. Sobrevivência nem sempre é a do mais forte e sim daquele que se adapta mais rápido a situação. Treinamento e adaptação a situação podem te manter vivo por mais tempo.

– Faz muito sentido! Gostei do assunto, conte-me mais.

– Só depois de outra rodada!

– Ó Capivara, traz mais uma porção de rã frita, um chopp e um refri!

O assunto volta.

– Uma coisa interessante é o treinamento para sair de casa em três minutos. A partir desse treino você pode sair de casa com todos meus principais pertences caso alguns desastre ocorra. Você pega sua BOB, seus documentos e sai da área de risco em condições melhores para manter a vida.

– Esse treinamento de três minutos me interessou depois vou querer que você me ensine. Você falou BOB, tem alguma coisa haver com o EDC?

– Em partes sim, o EDC é a primeira camada, tem a função de estar sempre junto ao corpo e garantir a vida. Já a BOB, também conhecida como Bug out Bag é uma mochila de evasão, sua função é dar suporte e sustentar a vida por 72 horas ou mais em casos onde o operador deve deixar sua casa ou base motivado por algum evento de risco.

– O que tem dentro dessa mochila?

– É composto por uma faca de sobrevivência, em alguns casos um fação, iluminação, água e purificação, fogo, abrigo, ferramentas, alimentos, higiene, kit de primeiros socorros, utilitários, comunicação, navegação e energia. Não vou entrar em muitos detalhes porque se não vamos ficar aqui a até amanhã.

– O assunto é bem amplo e o pedido já chegou!

Os amigos pararam o assunto por um instante para abastecer o corpo e aliviar a mente. O amigo do barbudo, agora já entendia o que era Sobrevivencialismo e sua importância para a vida das pessoas comuns. Dessa vez resolveu puxar conversa.

– E o governo tem alguma preparação?

– Sim, as preparações governamentais são Polícia, Bombeiros, SUS, defesa civil e CENAD. Mesmo assim, com todos esses “recursos”, ainda pagamos convênios médicos, segurança privada, colocamos grades na janela, aumentamos o muro de nossas casas e colocamos cercas elétricas ou vivas. 

– Nem considerava esses serviços do governo como preparação, agora percebo que sou uma pessoa bem desinformada sobre alguns assuntos.

– Mas são, e tem função estratégica para o país. Por mais que em alguns casos não sejam eficientes.

– Outra curiosidade que tenho é a fuga para o mato, como isso funciona?

– A fuga para o mato não é uma coisa hollywoodiana, não é fácil como aparece nos filmes e séries. Essa evasão só funciona por um curto período de tempo, caso ultrapasse o período previsto, o sistema de fuga pode pifar. Em alguns casos ficar no meio urbano é mais seguro do que no ambiente rural, vide judeus na Alemanha nazista. Sobreviveram por se esconder nos porões, anexos secretos e diversos outros esconderijos na cidade.

Uma pausa para molhar a garganta.

– Fugir para o mato só compensa quando for fugir de saqueadores ou quando você pertence a um grupo perseguido. Pois a maioria dos desastres vão te deixar dentro de casa. Se o governo estiver no meio de uma possível perseguição de um determinado grupo as chances de fugir ou se esconder no mato caem bem rápido.

– Entendo, agora me explique melhor essa parte do sistema pode pifar.

– O principal problema da evasão para o mato é arrumar comida, o consumível de maior necessidade e dificuldade de se conseguir. Pois, a caçar e a pescar nem sempre são garantias de obtenção de alimentos. Também vale lembrar que você ou seu grupo podem sofrer acidentes, necessitarem de medicamentos específicos que não serão achados naquele meio.

– Então fugir para o mato não compensa?

– Compensa se você preparar a mata para morar. Nesse processo você vai ter que plantar ervas medicinais, árvores frutíferas, esconder comida e ferramentas em tubos de sobrevivência, coletar lenha e aprender a purificar água. E boa parte desse processo, você pode fazer treinando em casa, para depois ir preparar a mata. E você jamais deve esquecer de prever velhos, criança, gente doente e ferida nesse cenário. Pode não parecer, mas eles são um bom motivo de preocupação.

– Então treinamento é a palavra chave?

– Sem dúvida!

– Mudando um pouco de assunto, quem eram os outros palestrantes?

– O primeiro foi aquele economista, acusado de “terrorismo eleitoral”. O segundo foi um general da reserva, fui o terceiro a palestrar e por fim, um cara que falava de simbologia. O assunto até que era interessante.

– Parece que foi uma reunião bem interessante de conhecimentos variados. E também estranha pelo endereço que me falou antes. Mas isso fica para outra conversa. Quero saber mais sobre sobrevivencialismo.

– Não te falei tudo, queria ter tempo de te falar sobre conservação de alimentos e núcleos de sobrevivência. Mas, meu ônibus sai daqui duas horas.

– Que isso tubérculo, eu te levo na rodoviária!

– Você bebeu sem chance, tenho dois filhos para criar, vou no meu passo mesmo.

– Ok, marcamos de conversa mais sobre sobrevivencialismo depois, beleza?

– Beleza, mas vai ser só um tira dúvidas. Você vai acessar O Guia em qualquer uma de suas plataformas, seja o blog, o portal ou o canal no YouTube e tirar as dúvidas comigo depois. Fechado assim?

– Fechado!

– Não abandonei a vida de negócios, só mudei o foco. Quanto que deu ai mesmo?

– É por minha conta tubérculo, obrigado pelas informações. Esse seu novo negócio é incrível!

– Valeu irmão!

E assim, o Barbudo se despede de seu amigo, pega sua mochila e caminha ao seu destino...