sábado, 30 de janeiro de 2016

RAZÕES DE UM CORAÇÃO VAGABUNDO

Até onde se lembrava, Josenildo nunca havia ficado mais que uma semana sem um rabo de saia. Às vezes, mais de um rabo de saia ao mesmo tempo, com uma cara de pau que espantava as irmãs, a mãe e as tias, únicas mulheres na face da terra que não eram por ele tidas como amantes potenciais.
Não perdoava nem as primas. E ocorre que havia umas bem saidinhas, salientes e oferecidas. Assim, Josenildo fazia a festa.
Andava de namoro com uma mocinha do bairro, menina de família, coisa fina, inocente de dar dó, mas foi cair nas graças do desengonçado do Josenildo.
Ela bem que andou dando uns foras nele, mas se havia algo que o depravado tinha era saliva para jogar nas mulheres, de preferência, novinhas e bonitas. Se fosse saliente, tanto melhor, mas no caso da Arlete, era uma menina quietinha, religiosa e muito dedicada às coisas do lar.
Josenildo era o tipo de rapaz que, quando enrascava com uma menina, era uma tristeza. Primeiro, contava para todo mundo de seu interesse, para ver qual a reação da garota. Depois, começava a investida com aquele papo de aranha que nunca podia ser nada proveitoso para a coitada que caísse na bicaria.
Na casa dele, todos adoravam Arlete. Acabou logo se tornando membro da família, embora casamento fosse uma palavra riscada no dicionário de Josenildo há muito tempo.
Acontece que o bichinho da paixão picou seu coração e ele caiu de amores pela pequena. A coisa era realmente verdadeira e foi aumentando até passar dos limites.
Por outro lado, embora as atitudes dissessem o contrário, o depravado nada tinha de autoestima. Assim, vivia imaginando coisas terríveis sobre a pobre moça. Sempre perguntava por que razão ela se envolveria tão seriamente com ele. Isso durou mais de uma década, naquela paixão doentia e num amor que nunca conseguiu explicar.
Quando acabou, já estava nos braços de uma das várias conquistas que contabilizava pela vida, mesmo louco de amor pela menina. Assim esteve por algum tempo, até cair na real e perceber que não conseguia viver sem a moça.
Decidiu, então, que iria tentar reconquistá-la, custasse o que custasse. E custou muito. Custou tanto que chegou um momento que achou melhor buscar a felicidade por outros cantos.
Todo mundo se cansava de avisar Josenildo de que um dia Arlete se cansaria das safadezas dele e cairia fora. Ele zombava dos amigos, que não tinha jeito, que ele aprontava, mas Arlete não poderia descobrir de jeito nenhum.
Era tão cara de pau que certa vez foi flagrado com uma garota no colo pela própria namorada. Falou tanto no ouvido dela que acabou por convencê-la de que aquilo que ela vira não era aquilo que ela vira.
E o namoro seguiu, primeiro com certa desconfiança dela, mas dentro de alguns dias, tudo normal de novo. E lá estava Josenildo com as cachorradas por tudo onde andava. E ia se divertindo. Parecia uma perdição. Amava a garota, mas não resistia a um rabo de saia.
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O pior defeito de Josenildo, para a mulherada, era o fato de ser um tremendo cafajeste. Quando alguma das perseguidas descobriam que era comprometido, costumava chorar de descer lágrimas quentes pelo rosto, afirmando que o relacionamento havia terminado. Era um absurdo, nunca aceito por suas irmãs, mas, enfim, Josenildo não tinha jeito mesmo.
Entretanto, para sua mãe, dona Erendeca, o pior defeito do filho era não ser muito chegado ao trabalho. Sempre encontrava uma desculpa para não pegar no batente.
Às vezes, encontrava um trabalho como vigilante, mas sempre durante o dia. Defendia que a noite foi feita para dormir.
Vários cursos, a pobre da dona Erendeca pagou para ele, mas nada de ele se endireitar em algum serviço que prestasse. Quando alguém aconselhava a se enveredar pela política, dizia que não gostava desse povo da política de jeito nenhum.
O pai tentou que virasse violeiro, mas cantava mal que dava dó, e não conseguia segurar as cordas para fazer as posições no violão. De forma que Josenildo era como um caso perdido, digamos.
Certa vez, entretanto, chegou um pessoal estrangeiro no bairro e não havia intérprete. Josenildo não era bom nem mesmo em português, mas conseguiu enganar aquele povo, caiu nas graças deles e acabou ganhando uns bons trocados. Isso o entusiasmou e então começou a estudar línguas.
Bem, menos, né. Começou a estudar um inglês básico, só para umas frases ou algo assim, para ver se levava jeito com os estrangeiros.
Mas não é que o Josenildo tomou gosto pela coisa! E foi ficando tão bom que em pouco tempo já era monitor e nem mais pagava pelo curso. Claro que ele continuou pegando o troquinho que o pai oferecia, não contando que ganhara bolsa no curso.
Foi estudando e, depois de algum tempo, acabou professor. Começou a se vestir melhor, a ganhar algum dinheiro e acabou, por um desses milagres de Nosso Senhor Jesus Cristo, tomando gosto pelo trabalho.
Nem é preciso dizer que se aproveitava da situação para chavecar as mocinhas que frequentavam o curso. E estava sempre traindo a pobre da Arlete com as meninas lá do curso. Inventava aulas extras, passeios pela escola, só para deixar a moça de fora e se mandar com as sapequinhas lá do curso de inglês.
Houve uma vez em que andou trocando correspondências com uma adolescente por lá e isso chegou aos ouvidos de Arlete. Ciente do que ocorria, o pai procurou Josenildo e botou bronca. Para azar dele, Arlete apareceu de repente e presenciou a conversa.
Não tinha como negar. O homem tinha um monte de cartões de amor que confiscou da filha com a caligrafia do cafajeste. Ninguém nunca soube como, mas fato é que ele, mais uma vez, enrolou a pobre da Arlete, que ainda o defendeu na escola, dizendo que era perseguição da família da moça. Ele era realmente da pá virada. Era mais fácil um rolo com o Coisa Ruim do que com Josenildo.

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Regineia já não suportava mais ficar insistindo com Josenildo para ir à sua casa e conhecer sua família. Ele sempre arrumava uma desculpa, dizia-se cansado, inventava uma obrigação com sua mãe ou com as irmãs, uma mentira absurda, já que não se tem notícia de alguém que algum dia já houvesse precisado do traste do Josenildo.
Certo dia, não aguentando mais tanta mentirada do moço, resolveu fazer uma visita surpresa. Chegou à casa dele e informou ser a namorada de Josenildo. Claro, todos ficariam muito felizes, até Josenildo. Isso se, quem a recebeu, não fosse Arlete.
Foi a gota d´água. Arlete já vivia intrigada com o comportamento de Josenildo. A presença daquela mulher não podia passar em branco.
Josenildo chorou, reclamou, pediu, implorou. Tanto fez que Arlete resolveu relevar. E o namoro seguiu com o mesmo charme.
Nessa ocasião, até dona Erendeca admitiu que o filho tinha parte com entidades ruins de outro mundo. Não era possível que alguma mulher, principalmente Arlete, relevasse tamanha desfeita. Mas relevou...
Foi interessante porque Josenildo percebeu que seu comportamento não condizia com a posição que ocupava, de grande professor de inglês de uma grande escola. Quer dizer, nem tão grande. Era apenas uma franquia que vivia enrolando o mercado com promessas que jamais poderiam cumprir. Mas, enfim, Josenildo era um professor de inglês daquela escola e precisava se comportar como tal.
Decidiu que, a partir daquele momento, levaria as coisas a sério, a começar por Arlete. Como podia, pensava, mentir para uma pessoa tão bonita, tão frágil e tão interessante!
Decidiu que seria um namorado fiel. Que iria fazer de tudo para que se transformassem num casal exemplar para todos. Era o que deveria fazer um homem que conseguisse entrar no coração de uma mulher tão interessante.
Tarde demais!
Certa noite de sábado, após o tradicional passeio, Arlete foi direto ao assunto. Disse a Josenildo que não conseguia mais amá-lo como antes, que aquela relação não tinha mais razão de ser.
Nem quis acreditar, mas aceitou as ponderações da moça. Pensou que, como das outras vezes, iria esperar uns dois ou três dias e a procuraria e tudo ficaria bem.
Que nada! Quando foi procurar a moça, ela já estava de conversas com outro rapaz. Quis tirar satisfações, mas ela se limitou a dizer que havia se cansado, que não dava mais para continuar.
Aí, a ficha de Josenildo caiu. Realmente, sentiu na pele a dor da perda de uma pessoa amada. Percebeu como fora idiota em mentir para uma pessoa tão boa e tão interessante.
Mas não dava mais tempo. Estava tudo definido, e cada um deveria seguir seu caminho. Arlete já estava buscando o dela. Josenildo percebeu que precisava fazer a mesma coisa.

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Josenildo e Arlete estiveram tanto tempo juntos que ele nem sabia como sair e se deixar estar com alguma garota. Bem, história, ele nunca havia deixado de estar com elas, mesmo estando com Arlete.
Agora, a questão era: seria bom estar com alguma daquelas garotas agora que não existia Arlete? Parecia que Josenildo sentia prazer em trair, mas levar alguma a sério, aí seria outra questão.
Foi levando de namoro em namoro, beija aqui, abraça ali, fica por lá, nisso, um par de anos se passaram. Não tinha jeito para Josenildo. Tinha uma lista de garotas e podia passar por todo o alfabeto, não havia uma letra que não fosse inicial de alguma mulher que houvesse passado pelos seus braços.
Houve um final de semana em que a caça andava fraca. A mulherada parece que combinou de não sair de casa. As que apareciam estavam acompanhadas. Isso deixou Josenildo meio desanimado. Afinal, todo mundo estava levando a coisa a sério e ele, que sempre estivera namorando sério, agora ali, naquele bar sozinho, conversando com alguns amigos, tomando cerveja e capturando as meninas de longe para ver se descobria algum olhar atravessador, como gostava de dizer.
Lá pelas tantas da madrugada, cansado de estar só, avistou uma mulher que andava meio perdida pelo corredor do bar. A banda que cantava ao vivo já anunciava que cantaria a última música. Ele, então, para não perder o costume, chegou perto da mulher e convidou para dançar.
Aquele não era lugar de dançar. Era apenas um bar, um restaurante muito bem frequentado, mas Josenildo não tinha limites.
Dançaram todo desengonçados, pois Josenildo dançava mal à beça. Dançar também não era o forte de Felisberta. Não podia ser algo que prestasse. Ainda bem que era a saideira da banda...
Felisberta não era o que se podia chamar de mulher bonita. Era meio desproporcional, com as pernas muito finas e os seios muito grandes. Isso, junto com o quadril largo e a cintura desfeita pelos exageros da culinária fazia dela uma figura bem desinteressante.
Mas Josenildo, depois de tantos drinques, e decepcionado com o péssimo final de semana, nem percebeu esses detalhes. O importante para ele era não voltar para casa liso, como dizia.
Nem voltou para casa, afinal. Voltou para a casa de Felisberta.
Chegando lá, nada de intimidades. Feliz, como ele a chamaria para impressionar, buscou o resto de cerveja quente que sobrava da faxina da tarde e trouxe também o vinho que sobrara da última fossa. Beberam como se fosse vinho francês e cerveja australiana. Afinal, Josenildo precisava de um rabo de saia para viver em paz. No meio dessa bebida, Felizberta contou sobre suas desventuras com Izaltino, seu ex-marido, que a deixara com os dois filhos e se mandara com a safada da Cremilda sem deixar o endereço.
Chorou e lambuzou o pescoço de Josenildo todo. Ele nem estava se importando. No calor da bebida e no meio da safadeza, só esperava o momento certo para dar o bote.
Foi se achegando, de mansinho, até conseguir passar o braço pela cinturona da Felizberta, que se ajeitou nos braços de Josenildo. Ainda disse que ele abraçava gostoso e foi se iludindo na lábias do cachorro. Em pouco tempo, estavam entre os lençóis sujos da descuidada.
Josenildo só foi embora amanhã. Esperou o café e pôde ver o quanto aquela criatura era feia. Mas ele era um homem muito educado, jamais faria desfeita com uma mulher. Então, esperou o café, fez os tradicionais elogios e confirmou que sairiam novamente.
Claro que não pensava nisso de jeito nenhum. Foi só deixar a casa dela e desapareceu como se fosse para sempre.
Poucos amigos souberam da aventura e isso foi confortável. Só que para todo cafajeste, um dia a casa cai.
De tanto procurar Josenildo, um dia Felizberta o encontrou. Como ela já não tinha um corpo nada esbelto, ele nem conseguiu notar, mas naquele corpo, que certa noite fora seu, estava plantado o fruto do amor.
Isso mesmo: Felizberta estava grávida. E os filhos eram de Josenildo.
Sim. Os filhos. Felizberta se engravidou de trigêmeos, que Josenildo não teve como deixar de assumir.
Agora, estava travado. Ele, que sempre tirava onda de pegar as novinhas lindinhas, bobinhas, agora estava enrascado: seria pai de trigêmeos de uma mulher atrapalhada, feia, mal educada. E pior: brava igual a uma jaguatirica.
Aí, sim. Agora, Josenildo teria uma razão para repensar sua vida e seus princípios.

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Durante os nove meses de gestação, que mais pareceram nove anos diante da chatura  de Felizberta, Josenildo teve que se aquietar um pouco. Parou com as andanças, com as festas até altas horas e deixou de gastar tanto dinheiro à toa.
Isso coincidiu com uma melhoria salarial lá na escola, onde vinha se dando muito bem como professor de inglês. Deixou até de ser tão preguiçoso e de reclamar de tudo e de todos. Os menos avisados chegaram até a comemorar a nova fase do novo Josenildo.
Pouco saía de casa, e sempre que acontecia era com o consentimento da Felizberta. Afinal, ele não queria contrariar a mãe dos trigêmeos. Os meninos haveriam de nascer com saúde.
Gostar mesmo da situação, bem que Josenildo não gostou nem um pouco, porém, já que teria que assumir, o negócio foi fingir que estava se adaptando à nova fase.
E Felizberta, que boba nada tinha, passou a se dedicar ao pai dos trigêmeos. Nunca fora muito afeiçoada a pegar no batente, então, a gravidez acabou sendo uma boa chance para se encostar em alguém.
Nisso não se podia reclamar de Josenildo, pois era de família séria, que costumava assumir os atos. Foi o que fez. Desde a gravidez da enjoada da Felizberta, passou a tomar isso como fato verdadeiro e passou a cuidar para que os pequenos viessem ao mundo com alguma estrutura familiar.
Quando as crianças chegaram, vieram tão lindos como chorões. Parecia que alguém sempre os estava beliscando, pois os três varões não se calavam um segundo se quer. A não ser quando estavam pendurados nos peitos de Felizberta, nem uma chupeta calava os meninos. Claro, Josenildo tinha que participar. Afinal, para ser pai mesmo, de verdade, tem que participar.
Assim, os meninos foram crescendo, cada vez mais levados e mais malcriados. A mãe não ajudava, pois se existia algo de que não dispunha era paciência. Qualquer coisinha, o tapa comia e o berreiro começava novamente. Aí, a criançada catarrenta ia parar no colo de Josenildo, um pai até com relativa paciência com os pequenos.
Foi dessa forma que aquele namorador incorrigível viu passar uma década, ao lado de uma mulher que não escolheu, cuidando dos filhos que não programou e aguentando as broncas que não estavam combinadas. Broncas não só da Felizberta, mas de uma irmã esculhambada que levava tudo quanto era tipo de gente para casa e também da sogra, dona Godofreda.
Essa era um caso à parte. A velha era terrível. Tinha uns sessenta anos a essa altura, mas o mau humor era tamanho que não seria difícil imaginar que tivesse mais que oitenta.
Mulher de pele clara que um dia deve ter sido bonita. Não agora, depois de tantos anos, quando tudo se achava enrugado e mal cuidado. As vestes também não ajudavam, pois a combinação era sempre uma alegoria de sábado de aleluia.
Adorava combinar uma saia enorme azul claro com uma blusa vermelha tipo vermelho-cheguei. Outras vezes, botava aquelas calças brancas (encardidas) e fazia a tradicional combinação com aquela bata rosa choque. Era coisa de conto de fadas, e ela, no caso, seria a bruxa.
Josenildo nunca soube se achava pior os gritos da velha, o vocabulário chulo ou o fato de ela nunca dizer o nome dele corretamente. Sempre dizia pela metade, mas fazia questão de enfatizar um R que nem existia. Ela chama ao genro Zenirdo. Aquilo era para ele o fim da linha.
Lá se foram os anos e os trigêmeos cada vez mais inteligentes e também mais atrevidos. Josenildo aguentando tudo. Só que os meninos começaram a ficar diferentes. Ele, moreno cor do Brasil e Felizberta bem corada, cor do samba e, de repente, os meninos começam a se destacar pela beleza trazida pelo contraste da pele muito clara com os grandes olhos verdes.
Foi questão de tempo para as rodinhas começarem a zombar do pobre Josenildo. Era sair com os moleques e começavam as piadinhas. A coisa começou a ficar séria, mas Josenildo foi levando mais uns anos. Dizia que iria esperar os meninos saírem do colégio.
E saíram. Já estavam para os quinze anos quando a diferença física começou a ficar muito a grande. Ficava até engraçado aquele moreninho do tamanho de pintor de rodapé, a mulher menor ainda, com aqueles galalaus enormes, parecendo crias alemãs.
E Josenildo olhava para as ex-namoradas, cada uma mais linda que a outra. Arlete, então, esta era um caso à parte: tornou-se uma mulher linda, com curvas acentuadas e ainda se casou com um homem rico e bonito. Não tinha mais volta.
Aí, Josenildo olhava para sua casa e via aquela jamanta horrorosa e mau humorada. Que coisa, pensava. Mas que poderia fazer? Foi buscar alguns minutos de prazer e arrumou encrenca para o resto da vida.

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Cansado dessa vidinha mais ou menos, Josenildo resolveu colocar as garrinhas de fora. Certa noite, Felizberta estava lá toda mau humorada, xingando até o silêncio, reclamando de tudo, então Josenildo resolveu dar uma saidinha.
Estava muito estressado, tanto que acabou arrumando confusão na rua. Foi se encrencar logo com um dos traficantes mais perigosos da região. Por sorte, o figura era amigo da cunhada sem lei e acabou aliviando a barra. Ao chegar a casa, claro, ainda levou bronca da bruaca.
Para se livrar de tanta encrenca, ele disse que andava muito estressado. Foi aconselhado a buscar um médico. Lá no consultório, na presença da mulher esculhambada e da sogra encrenqueira, o médico aconselhou Josenildo a buscar praticar mais a “coisa”, que isso é bom para o astral, que alivia o estresse.
Foi chegar o sábado que Rosenildo logo tratou de vestir uma roupinha limpinha, colocou um desodorante barato nas axilas e se arrumou para sair. Quando Felizberta veio cobrar-lhe aonde ia, ele a fez lembrar o conselho do médico. Quando explicou que o médico pedia para tivesse mais relações, ela bradou logo que estava ali. Mas Josenildo foi taxativo e disse que estava cansado de remédio caseiro.
Claro que nesta noite, o pau quebrou, não houve remédio caseiro nem de fora. Depois que brigaram e gritaram e fizeram show para toda a vizinhança, só se calaram porque estava na hora da novela e naquela casa era proibido qualquer tipo de barulho nesses momentos.
Os meninos já estavam com dezesseis anos e Josenildo andava cansado da situação. Resolveu sair de casa, não suportava mais aquilo. Afinal, ninguém, nem ele mesmo entendeu como aceitou de bom grado tudo aquilo. Abriu mão da galinhagem toda e se concentrou na criação dos trigêmeos.
O que mais impressionava era ele não trair aquela jamanta horrorosa e mal educada que, além de falar mal dele por todos os lugares, há quem diga que ainda pulava a cerca de vez em quando.

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Foi num sábado de carnaval que Josenildo resolveu dar seu grito de independência. Conversou com os meninos, inventou uma viagem demorada para não assustar os garotos, driblou a cara de bruxa da mulher e da sogra e se foi.
Mal acabou o carnaval e ele já recebia uma carta da justiça, convocando para um acordo de pensão alimentícia. Ele já havia sustentado os trigêmeos, a mãe, a cunhada, a sogra e os namorados da sogra e da cunhada, que não eram poucos. Agora, mais esta: teria que pagar pensão aos meninos.
De qualquer forma, era o pai, teria que arcar. Não havia escapatória, e ele nem queria correr o risco de os meninos ficarem sob maus tratos. Afinal, amava os filhos.
Na reunião de conciliação, a mãe dos trigêmeos exigiu três salários mínimos, um para cada um dos menores como pensão alimentícia. Claro que Josenildo achou um absurdo, mas teria que arcar com alguma coisa. Combinaram, então de ele oferecer um percentual que acabou sendo em torno de dois salários mínimos, mas teria também que arcar com o aluguel do imóvel onde moravam até que completassem vinte e um anos.
Seriam cinco anos de muita dificuldade, mas para se livrar daquelas megeras, qualquer coisa era válida. Acordaram assim, então.
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O tempo passou e Josenildo viu os trigêmeos se formarem e entrarem para a universidade. Já estavam todos empregados, cuidando de suas vidas. Por sorte, eram inteligentes e muito capazes, e foram logo se arrumando na vida.
Como eram bons filhos, Josenildo acabou se aproximando muito deles e manteve os benefícios para que pudessem terminar com louvor seus estudos sem sofrimentos.
A essa altura, havia se entendido com uma nova mulher, não à altura de seus sonhos, mas um prêmio de consolação depois de tanta tristeza ao lado daquela encrenca da Felizberta.
Só não conseguia intimidades com a nova namorada que afirmava: a coisa, só depois do casamento.
Era uma situação difícil, mas Josenildo ia levando como podia. Muita gente achava estranho, mas para quem está perdido, qualquer caminho serve. Era assim que pensava.
Quando os meninos completaram vinte um anos, Josenildo teve uma conversa com eles. Contou-lhes tudo que havia passado desde o nascimento deles, mas que estava feliz pelos filhos. Entretanto, queria dar uma lição naquela mulher terrível, que era a mãe deles. Combinou, então de eles levarem o cheque da mesada e do aluguel e pegou um bilhete, onde escreveu: “sua megera, finalmente estou livre de você, de sua mãe bruxa, de sua irmã vagabunda e de toda a sua família. A única coisa que me interessa são os meninos”.
Enquanto foram levar o cheque o bilhete, Josenildo resolveu tentar uma solução para seu namoro com Renildinha. Não suportava mais aquela coisa de namoro santo. Ao questionar com mais veemência, quase se estarreceu. Renildinha, sorrindo, disse na cara dele que não poderia se expor porque não era mulher. Na verdade, estava criando coragem para contar a verdade.
Fazer o quê? O jeito foi acabar com aquele namoro e procurar outro jeito de ser feliz. Ficou bravo igual a uma hiena. Logo ele, o pegador das menininhas, se enganando com um travesti.
Tentou argumentar, mas Renildinha teve certa razão quando afirmou que ele nunca havia lhe perguntado sobre seu sexo. Foi assim que Josenildo viu frustrada mais uma chance de amar de verdade.
Nisso, os meninos voltaram e trouxeram a resposta da mãe. Josenildo ficou todo saliente para saber como a mãe, a avó e a tia havia se comportado com o bilhete dele, no último pagamento da mesada.
Um dos meninos entregou o bilhete e foi saindo de fininho, enquanto ele abria e lia: “tem problema, não, Josenildo, também eles não são seus filhos. O pai é seu Jenovevo, lá do açougue”.